Fisioterapia & Saúde

Cresce o número de empregos para as pessoas com síndrome de Down

Por: Marina Mercante

Aline e Liane (C) atuam em gabinetes de ministros do STJ. Paula (D) é telefonista em uma das portarias do órgão

Em uma sociedade formada apenas por pessoas com Down, um casal recebe a notícia de que o filho não tem a síndrome. A diferença nos traços faciais evidencia que o recém-nascido é “especial” e ele passa, à medida que cresce, a sofrer preconceito de diversas maneiras. Essa inversão de papéis, o mote do filme brasileiro City Down, permite uma comparação com o mundo profissional. Imaginar a chegada de um funcionário diferente em um ambiente corporativo 100% Down ajuda a compreender o que passam homens e mulheres que vencem barreiras e ingressam no mercado de trabalho atualmente. Não existem dados oficiais sobre a empregabilidade de pessoas com o distúrbio no Brasil, mas, ao conversar com pais, especialistas e empregadores, é consensual que a quantidade tem aumentado.

 

Ramon Gonçalo Timo, 26 anos, faz parte dessa nova realidade. Desde janeiro, ele integra a seção de arquivo do Supremo Tribunal Federal (STF). De segunda a sexta, das 14h às 18h, sua função é limpar documentos e fazer pequenos reparos em materiais. Pelo ofício, recebe salário e tem a carteira assinada. Para chegar ao cargo, o rapaz frequentou, durante quase dois anos, o Curso de higienização, conservação e pequenos reparos de bens culturais, parceria da Universidade de Brasília (UnB) com a Apae-DF. A experiência positiva de Ramon deve ser pioneira para a entrada de outras pessoas com síndrome de Down no STF, de acordo com Marcelo Jesus dos Santos, chefe da seção. “Queremos aumentar o quadro de funcionários do setor para prestar serviços a outras unidades do Supremo. Mas não é só colocar no mercado e largar. A pessoa tem de se sentir profissional”, alerta.

Questionado sobre o que mais gosta de fazer no local de trabalho, o tímido Ramón responde logo: “De ajudar”. A noção de solidariedade se agrega à de responsabilidade e pontualidade, características destacadas pelos colegas e por Emílio Timo, pai do rapaz. Empresário, ele explica que optou por não colocar o filho para trabalhar em família porque a proteção exagerada poderia prejudicá-lo. “Quero que ele se desenvolva por mérito. Ele controla o salário que recebe, tem a própria conta bancária e usa como quer. Quase sempre, compra presentes para os irmãos”, conta. Emílio diz que se sentiu seguro ao ver o filho entrar no mercado e aconselha: “Digo para outros pais que fiquem tranquilos. Se não, vão colocar o filho em uma redoma e isso vai acabar com a vida dele. Com Down, há mais dó que preconceito. O que é até mais cruel, às vezes. Mas eu já passei desse estágio de preocupação”. O empresário lembra que, antes de Ramón começar a trabalhar, fez questão de conhecer a equipe e a sala onde ele ficaria no STF.

Perto dali, no Superior Tribunal de Justiça (STJ), seis pessoas com síndrome de Down já estavam inseridas no mercado de trabalho antes de Ramón. Renan Mota, 26 anos, e Liane Martins Collares, 48, são os com mais tempo de casa. Estão lá desde 2009. No ano seguinte, entraram Aline Luz, 33; Fernando Filho, 26; Wagner Rodrigo, 21; e Paula Carvalho, 23. Paulinha, como é chamada, é a única que trabalha na portaria, como telefonista. Namora Wagner, assessor do ministro Mauro Campbell. Os outros também estão nos gabinetes — Fernando, no de Francisco Falcão; Aline, no de Herman Benjamin; Renan, no de Cesar Rocha; e Liane, que é escritora, integra a equipe do ministro Humberto Martins. “Meu xará de sobrenome”, ressalta a funcionária.

Exceto Renan, cujo contrato foi feito com a Presidência do STJ, todos foram contratados por meio do Centro de Treinamento de Educação Física Especial (Cetefe). A assinatura de um convênio nos mesmos moldes está bem adiantada na Procuradoria Geral da República (PGR) e há a intenção do STJ de formar uma turma para o período matutino. Para chegar a uma dessas futuras vagas é necessário passar por uma seleção no Cetefe, que inclui entrega de currículos e entrevistas com pais e filhos.

Iniciativa privada
O interesse em contar com portadores de Down costuma vir de órgãos públicos. Mas também acontece de empresas privadas procurarem o Cetefe. “Quando isso ocorre, encaminhamos alguma sugestão de nome”, diz o fisioterapeuta e professor do centro Waldemar Junior.

A professora do setor de RH da Apae-DF, Glória Maria Dias, reconhece as dificuldades para a inserção dos portadores de Down no mercado competitivo aberto. Isso porque as pessoas selecionadas pela entidade, em geral, são colocadas em grupo e fazem um trabalho apoiado, com um coordenador treinado pela Apae. Para Glória, o estímulo desde a infância pode ser um diferencial na hora de buscar a inserção profissional. “Se a pessoa é estimulada, vai ter mais autonomia. Também trabalhamos para reduzir a superproteção dos familiares.”

A inclusão de pessoas com deficiência no mercado é o objetivo da Plura Consultoria, com sede em São Paulo. De acordo com a consultora de recrutamento e seleção sênior da empresa, Roberta Rodrigues, a colocação de quem tem Down — ou outra deficiência intelectual — enfrenta maior resistência porque requer acompanhamento ao menos uma vez por semana, o que significa um custo a mais para o empregador, no caso do setor privado. “Ele se pergunta: onde alocar esse funcionário? Quem vai ser o tutor? E, se entrar alguém de fora — um assistente social ou um psicólogo, por exemplo —, como lidar com o sigilo das informações?” Roberta salienta que o ofício de um Down deve ser manual, administrativo. “Precisa de rotina, meio e fim.”

Muito pouco

Dados do Ministério do Trabalho mostram que, dos 44,1 milhões de postos profissionais ativos em 31 de dezembro de 2010, apenas 306 mil estavam ocupados por pessoas com deficiência (0,7%) — destes, a intelectual representava 5,10%. Sobre a situação específica da empregabilidade de pessoas com Down, não há estatísticas oficiais ou extra-oficiais.

Não é doença
Descrita pela primeira vez como uma anomalia genética em 1959, a síndrome de Down caracteriza-se pela presença, total ou parcial, de um cromossomo 21 extra — o indivíduo nasce com 47 cromossomos, ou seja, um a mais que o esperado. Não se trata de uma doença, mas de uma deficiência genética.

Serviço
Apae
Educação Profissional e Colocação no Trabalho
Etapa qualificação — curso de higienização de documento
Local: Oficina instalada dentro da Biblioteca Central da UnB
De graça
Duração: Aproximadamente dois anos
Telefone: 2101-0460
Site: www.apaedf.org.br

Cetefe
Banco de currículos
E-mail: cetefe.bancodetalentos@gmail.com
Telefone: 3905-5538
Site: www.cetefe.org
Endereço: Estação do metrô
da 114 Sul, loja 5

Plura Consultoria e Inclusão Social
Trabalha para incluir pessoas com deficiência no mercado de trabalho
Telefone: (11) 3206-4455
Site: www.plura.com.br

Fonte: Correio Brasiliense

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