Fora da Ordem

Crítica: Moonlight – Sob a Luz do Luar (2016), de Barry Jenkins

Uma das mais autênticas possibilidades do cinema é realizar um recorte social do seu tempo. Produções recentes como Spotlight (2015), Her (2013) e, trazendo para mais próximo da nossa realidade, o pernambucano Aquarius (2016), fizeram isso brilhantemente. Cada um à sua maneira e à medida do que o cerne narrativo exigia. São filmes com debates legítimos, complexos e, principalmente, atuais. E são, também, completamente diferentes.

Em Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016), o diretor e roteirista norte-americano Barry Jenkins compreende bem o papel social que tem o cinema. Segundo da sua filmografia – o primeiro foi Medicine for Melancholy (2008), ainda inédito no Brasil – o longa se vale de uma juventude marginalizada para narrar a jornada de Chiron, um garoto negro, gay e periférico.

Carregando prêmios por onde passa, é dele o troféu de Melhor Filme de Drama, do último Globo de Ouro. Também levou dois Critic’s Choice Awards e prêmios bem vistos no mercado como o do Sindicato dos Atores e o Gotham Independent. No Oscar, onde concorre em oito categorias, é um dos favoritos ao prêmio máximo, ao lado de La La Land, de Damien Chazelle.

Dividido em três fases (infância, adolescência e maturidade), o drama se apropria de questionamentos tão fortes quanto verossímeis para justificar a formação do seu protagonista.

Nos idos dos 30 min de tela, o roteiro pergunta, por meio de Little, como era chamado Chiron na infância, o que é “uma bicha”. A sequência, como tantas outras dos 110 minutos, é devastadora. Não há espaço para cliché e nem para excessos. Numa performance excepcional do pequeno Alex R. Hibbert, a honestidade dolorosa na postura de Little é suficientemente forte. O diálogo segue nas dúvidas da autodescoberta e do debate moral em que se fecha a comunidade onde o filme é situado, em Miami.

O estreante Hibbert contracena com Mahershala Ali e Janele Monáe, que também estão no elenco de Estrelas Além do Tempo, concorrente a Melhor Filme no Oscar. Nas fases seguintes, Chiron é interpretado por Ashton Sanders e Trevante Rhodes, ambos bem mergulhados no personagem. Outro ponto impactante é a atuação de Naomie Harris como a dependente química Paula, mãe do garoto.

Com domínio da importante obra que tinha em mãos, Barry Jenkins fez um trabalho notável ao pontuar as nuances que acertam a história. Do âmago do ambiente estabelecido pela família, do contexto escolar que acompanha qualquer sujeito e das descobertas guiadas pelo barulho do mar, Moonlight brilha ao se comunicar com quem não tem lugar de fala. Mais importante que isso, mostra uma realidade ignorada por quem não tolera o enfrentamento.

Realizado em um tempo em que o protecionismo, a intolerância e a opressão saem do armário, Moonlight tem muito a dizer a quem encontra na resistência um alento. Um retrato cruel do mundo como ele é: lugar onde se colocar é regra de sobrevivência.

Ficha técnica: Moonlight: Sob a Luz do Luar (EUA, 2016), de Barry Jenkins. Drama. 111 minutos. Estreia nesta quinta-feira, 23 de fevereiro.

* Originalmente publicado no blog Cinema às 8.

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