Leituras da Bel

Coluna À procura da poesia: uma leitura do livro Lero-Lero, de Cacaso

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Cacaso, o poeta

Por Talles Azigon (da página Poesia Brasileira)

Pra começo de conversa…

Uma amiga do Clube de Leitura da Sublime pediu a indicação de uma obra para adentrar no mundo mágico dos livros de poemas. Um questionamento pertinente, pois, por incrível que pareça, o gênero poesia não é um dos mais lidos ou comprados pelos leitores e leitoras assíduos, também quase não é comentado em clubes e rodas de leitura.

Para orientar e ajudar as pessoas que buscam poesia, resolvemos abrir uma coluna semanal aqui no Leituras da Bel. Sem muitas firulas ou ornatos, a ideia é apresentar de modo nítido, simples, acessível, uma série de livros de poemas.

Esse espaço é uma perspectiva, pois sabemos do caráter multi interpretativo de um livro de poemas, de suas diversas possibilidades de leitura. Essa é a minha, de poeta, principalmente de leitor e amante do universo poético, logo será recheado de impressões, experiências, lembranças. Não irei explicar o poema, não ensaiarei sobre eles. Afinal, já dizia o mestre Quintana:

“Não tem porque interpretar um poema. O poema já é uma interpretação”

Chega de Lero-Lero

Chega não, isso é apenas uma das minhas horríveis tentativas de trocadilho, inclusive (mesmo abominando o uso da palavra inclusive) Cacaso ainda é pouco lido. Muito provavelmente você tenha ouvido falar muito mais de um outro poeta, o Leminsk. Participante de uma mesma geração intitulada de geração mimeógrafo, pois uma das características dessa geração era a manufatura e distribuição pelos próprios poetas de suas obras. Separar a literatura por grupos, gerações e escolas é sempre problemático. Alguns nomes ficarão em destaque, outros se apagam, mas vamos expandir, cada poeta é um multiverso, falemos de Cacaso e seu Lero-Lero.

O livro é a junção da obra poética completa do autor, foi publicada pela extinta Cosac Naify, estreando a coleção de livros de bolso da editora. E só isso diz muito sobre como é a poesia de Cacaso: portátil, compacta, rápida tal qual um relâmpago. O livro reúne os seis títulos lançados pelo autor em vida, mais uma parte reunindo os inéditos e dispersos.

Arca de Noé
Nasceu
Fudeu

Para quem tá acostumado com os sonetos, Camões, ou os nossos memoráveis poemas românticos pode estranhar logo de cara, Talles isso aí é poesia? Como assim? Parece mais piadinha, reclame publicitária, frase de para-choque de caminhão… poesia, soa até estranho

Indefinição
pois assim é a poesia:
esta chama tão distante mas tão perto de
estar fria

É aqui que mora nossa grande dificuldade quando o assunto é poema. Nosso conhecimento muitas vezes esbarra em estruturas solidificadas na nossa mente, elas quase sempre têm rimas, muitos versos, falam de temas grandiosos. Quando você for ler Lero-Lero é preciso antes de tudo apertar um F5 e atualizar o conceito de poema, para ganho e felicidade nossa.

A maioria dos poemas desse livro não tem mais de quatro versos, eles são quebrados, a gramática e a ortografia são preteridas em benefício do ritmo, da cor, dos sentidos que as palavras têm. Afinal, é mais gostoso falar “ticido”, do que “tecido”. No poema, ritmo, forma ou conteúdo se quebram e requebram para o gozo do lúdico, para aumentar o impacto da palavra.

Estilhaço
não me procure mais
não relembre
cada um sofre pra seu
lado

Com o livro aberto, muitas vezes você pode visualizar de uma vez só até quatro poemas, um em cada canto de cada página. E, nesse giro, você pode se deparar com emoções e tons tão diversos, e, mesmo parecendo rápido de ser comido, a digestão pode ser bem lenta. Não se espante se um dia, andando de ônibus, ou muito bem incomodado na fila do ônibus, igual um relâmpago, você lembre de um desses poemas de dois versos. Pois os poemas do Cacaso parecem balas que se alojam Você nem percebe que tá lá, mas tá lá e tal hora ela vai se mostrar.

Mínimo divisor
Cada um deve ser pelo menos dois

Leia também esse livro como se fosse um albúm de fotografias, ou melhor, como se fosse um perfil de instagram, cada poema bem poderia ser uma fotografia, não se engrande, o simples não é simplório, o modo como o poemas se organizam graficamente no papel também faz parte do poema. Por isso, por mais que a gente ache muito dos poemas de Cacaso espalhados pela internet, lê-los no papel é uma experiência válida, deliciosa para melhor acentuar.

Logias e Analogias
No Brasil a medicina vai bem
mas o doente ainda vai mal.
Qual o segredo profundo
desta ciência original?
É banal: certamente
não é o paciente
que acumula capital.

Mesmo sendo lúdicas e cheias de gracinhas, as poesias do Cacaso não se alienam. Elas provocam também, provocam muito, a diferença é, muitas vezes, o autor interrompe a provocação no meio do caminho para que você a complete. Um outro ponto para os livros de poemas, os livros de poemas sempre foram livros de colorir, antes mesmo da grande moda desse tipo de publicação, eles são potentes, mas precisam do leitor para enchê-los, não à toa você pode e deve ler os poemas de Lero-Lero, assim como qualquer poema de qualquer livro de poemas, em voz alta.

Falando sério
Outro amor? Não caio mais.

Busque Lero-Lero nas livrarias, bibliotecas, chegue mais perto, mande poemas pelo WhatsApp para seus amigos e amigas, leia poemas para suas amigas e amigos. Vamosjuntos nessa empreitada à procura da poesia no Leituras da Bel. Comente, diga qual livro você deseja ver por aqui, pode fazer perguntas, ler um poema não é tão diferente de ler a vida.

*Talles Azigon é poeta, editor e produtor cultura. Já publicou os livros Três Golpes D’Água e MarOriginal. Gosta de assistir Hora da Aventura, de passear na Floresta do Curió e do banho na Sabiaguaba. À procura da poesia é uma coluna semanal com comentários e indicações de livros, autores e poemas. Leia mais poetas.

 

 

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