Leituras da Bel

Leia o texto “morrer por tabela”, produção do escritor Antônio LaCarne

Morrer por tabela
– Antônio LaCarne –

Colagem de Antônio LaCarne

Durante três dias seguidos, ele se vestiu de ela e me contou histórias sobre sua triste noite: exausta, como dominó em disparada, pois ele-ela não mais se importava; seguia em ritmo solo por outras noites, olhando as pessoas nos olhos – mastigando-as intimamente, em desinteresse. Disse-me também que não me preocupasse com os monstros ou alpinistas de ocasião, que me concentrasse num trabalho árduo, dando voz ao que sou, pois manhãs, tardes e noites são de dureza – como na capa do livro em que os dedos de um homem arregalam os olhos de um cão. Mas os deuses não conspiram contra mim, repeti em silêncio, acendendo um cigarro, prestes a não me perder no labirinto ou no escuro. Respondo-lhe que me distraio escrevendo histórias de terror, como numa revolta ao impressionismo tão presente nas coisas que eu escrevia. Fugir do impressionismo abriu outra porta cognitiva: agora me sinto livre para entreter, dançar conforme a música, me preocupar com a retórica do texto, seu formato, seu design sombrio. Então a melhor amiga me telefona, desestruturada – estamos todos desestruturados, quem não? –, damos gargalhadas, rinchamos diante do abismo; nem sequer falamos em “salvação” ou “inspiração”, pois tudo isso se assemelha aos poetas românticos do século XIX. Dane-se o romantismo, concluímos, entre uma declaração maldosa e outra. Que rompam os tambores. Pensávamos que as pessoas estavam fartas das mentiras, o que não é o caso. Repito também que só os extraterrestres são sinceros: eles não morrem por tabela, e assim como os deuses, não cospem no prato que comeram – afinal deuses e extraterrestres não têm pratos, apenas exuberância.

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Antônio LaCarne

É cearense, formado em Letras Inglês pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Autor de Elefante-Rei: Poemas B (CBJE, 2009), Salão Chinês (Patuá, 2014); Todos os poemas são loucos (Gueto Editorial, 2017) e Exercícios de fixação (AR Publisher, 2018). Participou das antologias “A polêmica vida do amor” (Oito e meio, 2011) “A nossos pés” (7Letras, 2017), “Golpe: antologia-manifesto” (Nosotros Editorial, 2017) e “Rotatórias” (Galeria Sem Título Arte, 2018).

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