Leituras da Bel

Leia “Tudo ao contrário”, texto da escritora cearense Luana Braga

Tudo ao contrário 
— Por Luana Braga*

Foto de Luana Braga

Ato 8.
Noite.
Quarto do apartamento.
A luz indireta de um abat-jour
ilumina a réstia do quarto de Bárbara.
Seu rosto parece sombreado.

[Bárbara tira a roupa.
Depois, o sutiã;
por fim, a calcinha.
Bárbara observa-se no espelho.
Nua. Corpo inteiro.
Bárbara se olha.]

Bárbara:
Eu faço tudo ao contrário.
Olha.

[Bárbara levanta um braço.
Depois o outro.
Abre os dedos da mão.
Expõe o dedo médio
para si mesma.]

Bárbara:
Viu? Olha só…

[Bárbara soa levemente
filosófica.]

Bárbara:
No espelho, na vida…

[Bárbara vira-se
e começa a procurar uma roupa
nos cabides.]

Bárbara:
Eu, por exemplo, faço tudo ao contrário.
E, quando eu vejo, já fiz!

[Rápido,
Bárbara veste um vestido curto.
Sente calor.
Prende o cabelo no alto.
Não põe sutiã;
sai do quarto sem calcinha.]

Ato 9.
Ainda noite
Corredor do apartamento.
Não há luz no corredor,
em direção a sala.
O tapete do corredor parece escorregadio.

[Bárbara caminha rápido enquanto prende novamente
o cabelo no alto da cabeça.
Segura um dos grampos entre os dentes.
O vestido curto parece
não amenizar o calor.
O tecido da barra curta do vestido
parece grudar na pele da coxa de Bárbara.
Bárbara, súbito, pára.]

Bárbara:
Aí, fica tudo errado.
Tudo errado.
Parece que não acerto uma!
Tudo ao contrário.

[Bárbara olha pra frente.
Parada no meio do corredor do apartamento,
a caminho da sala.
Parada, em frente a porta da cozinha.
Parada.]

Bárbara:
Sente esse vento?
Acho que vem aqui da cozinha.
Não sei bem.
Ah…!

[Bárbara quase suspira.
E pira:
tira, súbito, todo o vestido.
Deixa-o cair.
Detém-se nua, parada.
Enxuga o suor do pescoço. O suor dos peitos.
Fecha os olhos quando parece sentir
ainda mais o vento.
Bárbara pára.
Pára e fica.
E fica parada.]

***

Luana Braga

É escritora, fotógrafa, ilustradora e compositora. É autora dos vídeos-poema “Carnaval em mim”, “Viagens Insólitas”, “Saudade” e “Simples quando”, todos disponíveis no seu canal no YouTube. Fez músicas em parceria com Joyce Custódio, Jord Guedes, Guilherme Cunha, Charles Wellington e Pedro Falcão. A cada quinze dias, e junto a Carolina Capasso e Marta Pinheiro, produz o sarau itinerante “Casa de Poesia”. Todas as quartas-feiras publica seus poemas no blog Leituras da Bel, do O POVO; e teve poemas seus publicados na Revista Maracajá, suplemento literário do O POVO. Recentemente, teve seu material literário-fotográfico “Nunca mais eu digo: eu te amo” exposto na Galeria de Arte do Ibeu; e, atualmente, o mesmo material encontra-se disponível para visitação, na Livraria Lamarca, e para download pelo link https://is.gd/JAXs1A. É de sua autoria a galeria @insolitaviagem, no Instagram.

***

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