Plínio Bortolotti

“O castiçal”, de Leonardo Mota

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Venho publicando, a cada domingo, as 11 primeiras histórias do livro “No tempo de Lampião”, de Leonardo Mota.

Esta é a terceira da série, “O castiçal”.

“No tempo de Lampião” foi publicado origalmente em 1930, por Leonardo Mota, um cearense que dedicou a vida a pesquisar as coisas do Nordeste.

O cearense Leonardo Mota [1891-1948], nascido em Pedra Branca,  escreveu várias obras sobre as coisas do Nordeste, região que ele percorria para coletar as histórias que escreveu.

Textos anteriores já publicados:

O príncipe
Para tirar  a raça

O castiçal

Quando Lampião ocupou a povoação baiana de Abóboras teve a fantasia de exigir que lhe trouxessem e a seus cabras onze mulheres amigadas. A localidade não contava com tal número de concubinas, pois graças à ação dos padres no confessionário e no púlpito, vão rareando os amancebados.

Ele satisfez-se com as três ou quatro que lhe foram levadas e condescendeu em deixar em paz as matronas e donzelas. Formou, em seguida, um samba orgíaco, todos os figurantes em trajes paradisíacos, como é de seu gosto.
Os bandidos, sem exceção de um só, ficaram completamente bêbados. A povoação possui algumas dezenas de homens válidos, vigorosos. Se oito ou dez desses homens se dispusessem, já não digo a matar os onze cangaceiros, mas a amarrá-los e prendê-los, isso teria sido conseguido, pois no estado de embriaguez em que os criminosos se encontravam, quase nula reação haveriam de opor. Mas, este nome Lampião é o espantalho de milhões de almas no sertão nortista!

Pouparam-no em Abóboras. Dias depois, no lugar “Carro Quebrado”, ele praticava infâmia de fuzilar nove homens indefesos que trabalhavam numa estrada de rodagem. E liquidava, a faca, os sete soldados do destacamento de Queimadas, de cujo comércio extorquiu vinte e quatro contos de réis.

Nessa última façanha ignóbil, culminou a sua perversidade. Apanhados de surpresa, os soldados se lhe haviam rendido, sem resistência. Lampião meteu-os num cubículo e, ao escurecer, de um em um, os fez retirar para o oitão da cadeia.

– Sabe que vai morrer? perguntava ao que chegava.

O infeliz pedia-lhe compaixão, em súplicas da maior humildade, em rogos da maior angústia. Fingindo-se apiedado, ele ordenava:

– Pois, então, tire as suas perneiras, que eu preciso delas.

Quando o desgraçado se curvava para as desabotoar, traiçoeira punhalada pelas costas o prostrava. E Volta Seca ia sangrando na garganta os apunhalados. (Um parêntese. Volta Seca é o benjamim da horda, quase uma criança. Não tem dezoito anos. Verdadeiro criminoso nato, vive carrancudo, alegrando-se apenas quando dá expansão aos instintos sanguinários. Chama a Lampião de “padrinho” e este o considera o seu “menino de confiança”.)

Ainda em Queimadas, após haver dado liberdade aos presos sentenciados, Lampião insultou estupidamente o Juiz togado, a quem chamou de “negro” e obrigou a servir-lhe água e café…

Virgolino nada põe à boca, sem que obrigue a pessoa que lhe apresenta a comida ou bebida a servir-se primeiro.

– Veneno pra eu véve por aí banzando! Costuma repetir, precavido contra qualquer traição.

No sertão pernambucano, uma mulher pretendeu envenená-lo. Lampião convidou-a a beber da cachaça em primeiro lugar. Ela desculpou-se, alegando que estava purgada. Virgolino tirou do embornal uma colher de prata e meteu-a no copo. A colher enegrece. Lampião percebe a cilada, agarra pelos cabelos a ousada sertaneja, amarra-a ao tronco de uma árvore, embebe-lhe de querosene as vestes e queima-a viva, desfechando-lhe, por fim, um tiro de misericórdia no seio estorricado.

A fruir a sua liberdade, com a sorte inaudita de sempre despistar os que o procuram, gosta ele de fazer picardias aos agentes do Governo. Na noite em que surpreendeu com a sua presença os frequentadores do cinema de Capela, em Sergipe, dirigiu-se, a desoras, ao Posto Telefônico e obrigou o respectivo funcionário a chamar, na Capital, o Chefe de Polícia do Estado. Informaram de Aracaju que, àquela hora, quase madrugada, o mencionado auxiliar do Presidente Manuel Dantas estava a dormir em sua residência, sendo impossível a ligação solicitada. Lampião riu-se e deixou-lhe um recado atrevido e grosseirão, atenuado com o reparo trocista de que a polícia dormia, enquanto ele velava e fazia ronda…

São inumeráveis os fatos em que Virgolino tem patenteado a hediondez da sua alma de monstro. Entre essas práticas infames se inclui a de cortar os beiços dos assassinados, “pra que os defuntos fiquem se rindo”…

O antigo Deputado Federal, Dr. Vergne de Abreu, que esteve no sertão baiano, quando Lampião ali praticava atrocidades inconcebíveis, dá-nos conta, no livro “Os Dramas Dolorosos do Nordeste”, de alguns fatos horripilantes, quais sejam o de Virgolino haver castrado quatro rapazes em Tucano, e o de Lampião e quinze cabras haverem, em Baixão do Carolino, cevado sua lubricidade numa virgem, a qual veio a falecer no dia seguinte. O suplício dezesseis vezes sofrido pela infeliz donzela foi testemunhado por sua mãe velhinha, a cujas extorções de piedade para a filha desditosa foram insensíveis os dezesseis demônios. Outra infâmia de Virgolino foi surrar na fazenda “fundão” o octogenário Joaquim José dos Santana, em cujas costas o perverso tatuou uma cruz, a punhal, depois de ter cortado os tendões dos pulsos do ancião, para que o mesmo ficasse irremediavelmente aleijado.

No sertão baiano, mandou Lampião preparar um ferro, uma marca de gado, com as iniciais V L (Virgolino Lampião) entrelaçadas. Quando uma donzela lhe resistia à luxúria, ele mandava aquecer o ferro. E quando o ferro estava em brasas, ele ferrava nas coxas e nádegas, como reses suas, as virgens sacrificadas, “éguas brabas”, no seu repulsivo falar.

No interior do município de Curaçá, ele ferrou duas moças que logo lhe não satisfizeram o desejo. Uma delas era noiva e enlouqueceu. Um cabra de Lampião contaminou de mal venéreo a viúva, mãe de ambas. Dias depois, as três desgraçadas tabaroas chegavam à cidade de Juazeiro. Foi uma cena pungente: a viúva dizia-se desonrada e pedia um remédio pra… morrer; a louca proferia coisas desconexas, em que se baralhavam os nomes do noivo e de Lampião; a outra mocinha, debulhada em lágrimas, chorava o seu infortúnio irreparável.

Do longo capítulo que sobre Lampião escrevi no livro “Sertão Alegre”, consta a proeza de Virgolino haver assaltado uma casa em que se festejava um casamento, e obrigado os noivos a dançarem despidos, completamente despidos, na sua presença.

Houve, no Rio, quem duvidasse da autenticidade de semelhante episódio. Objetou-se que, figura legendária, a Lampião deviam ser atribuídas muitas façanhas que jamais lhe passaram pela mente. Entretanto, o fato em apreço é absolutamente verdadeiro. A ele se referiu também o poeta popular José Cordeiro, pondo esta confissão na boca de Virgolino:

No distrito Cajazeiras,
Perto do lugar Tatus,
Em um casamentos eu fiz
Os noivos dançarem nus,
E no meio do pagode
Mandei apagar a luz…

Eu me encontrava, em agosto do ano passado, nos sertões da Bahia, quando ao “Diário de Notícias”, de São Salvador, o Cel. Antônio Soares Monte Santo, fazendeiro em Canudos, concedia uma entrevista sobre acontecimentos desenrolados durante a estada de Lampião em terras baianas. Transcrevo-lhe este trecho:

– “Foi em Pedra Branca. Ali assaltou ele uma casa de família. Armou o samba. Fez quatro mocinhas despirem-se. E tocaram a sanfona. Houve bebidas e sacrifício das infelizes sertanejas.

– Horrível!-

Mas verdadeiro. E não foi tudo. Uma emboscada atraiu subdelegado. Este quis manter-se como autoridade. Foi batido, violentado, vítima de um atentado infame que o levou quase morto ao hospital de Juazeiro”.

O primeiro tópico por mim grifado mostra que Lampião é useiro e vezeiro na canalhice de obrigar donzelas a se desnudarem publicamente. O segundo alude a um atentado infame, que certamente o jornalista não se animou a registrar. Faço-o eu, para que se não perca esse documento do espírito demoníaco do até hoje impune do flagelador dos sertões. Lampião forçou o subdelegado de Pedra Branca a ficar nu em pelo, introduziu-lhe uma vela no ânus, acendeu-a depois e, obrigando a vítima a passear pela sala, deixou que a vela quase se consumisse, queimando o pobre homem, em meio às gargalhadas e chacotas da cabroeira encachaçada.
Como não há narrativa trágica que o tabaréu não sublinhe comicamente, o sertanejo que primeiro me garantiu a veracidade desse fato, cuja confirmação tive mais tarde, balançava a cabeça e me dizia:

– Patrão, vamincê vigie só a que é que nossos governos deixam sujeito o pobre sertanejo! vigie só de que é que Lampião anda fazendo castiçal…

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2 Comentários

  • Vinícius Benevides disse:

    Reagir com brutalidade, voltando-se contra o mundo e fazendo “justiça” com as próprias mãos não faz de Lampião um heroi.
    Agir com crueldade contra pobres sertanejos desarmados só tem um nome. COVARDIA.
    Lampião, bandido, cruel e covarde.
    Heroi só mesmo na mente dos desinformados.

  • LÉO MEDEIROS disse:

    Bela postagem Plínio, você está trazendo aos domingos. Tenho quatro livros do saudoso folclorista Leota, inclusive esse que você está resgantando em suas postagens. Concordo com Vinícius, de herói Lampião tem pouca coisa, mas a sua valentia e horoísmo deve-se muito a poesia popular que exaltava os feitos de Lampião e muitas vezes os poetsas colocavam em seus versos aquilo que sequer acontecia. Abraços!

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