Plínio Bortolotti

“Mãos dadas” – Carlos Drummond de Andrade

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“Mãos dadas” – Carlos Drummond de Andrade

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, do tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

1 comentário

  • João Cândido disse:

    Ontem à Tarde
    Ontem à tarde um homem das cidades
    Falava à porta da estalagem.
    Falava comigo também.
    Falava da justiça e da luta para haver justiça
    E dos operários que sofrem,
    E do trabalho constante, e dos que têm fome,
    E dos ricos, que só têm costas para isso. E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
    E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
    O ódio que ele sentia, e a compaixão
    Que ele dizia que sentia.

    (Mas eu mal o estava ouvindo.
    Que me importam a mim os homens
    E o que sofrem ou supõem que sofrem?
    Sejam como eu — não sofrerão.
    Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,
    Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
    A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
    Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)

    Eu no que estava pensando
    Quando o amigo de gente falava
    (E isso me comoveu até às lágrimas),
    Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
    A esse entardecer
    Não parecia os sinos duma capela pequenina
    A que fossem à missa as flores e os regatos
    E as almas simples como a minha.

    (Louvado seja Deus que não sou bom,
    E tenho o egoísmo natural das flores
    E dos rios que seguem o seu caminho
    Preocupados sem o saber
    Só com florir e ir correndo.
    É essa a única missão no Mundo,
    Essa — existir claramente,
    E saber faze-lo sem pensar nisso.

    E o homem calara-se, olhando o poente.
    Mas que tem com o poente quem odeia e ama?

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