Plínio Bortolotti

A imprensa deve repensar a maneira como noticia a violência, diz jornalista mexicano

Em entrevista para o caderno “Ilustríssima”, da Folha de S. Paulo (21/8/2011), o jornalista e escritor mexicano, Juan Villoro, diz que a imprensa deve repensar a maneira como notícia a violência; e que “é preciso valorizar a narração de histórias no jornalismo”.

Villoro é professor de literatura na Universidade Nacional Autônoma do México (Unam), colaborador de várias revistas e também escritor de ficção, tendo publicado vários livros.

Investir na narração

Ele cita como exemplo que no México, quando os traficantes sequestram alguém, usam o termo “levantado”, o que é repetido pelos jornais. [Não se parece com o que ocorre no Brasil, passando pelo jornalismo econômico até o jornalismo policial?].

O jornalista sugere que como, hoje, todos os jornais têm todas as notícias mais facilmente (por meio de agências), que o dinheiro economizado nesse aspecto seja investido para “valorizar a narração de histórias, pois elas dão sentido ao mundo”.

Pânico de sair do homogêneo

Mas Villoro diz que, “curiosamente” a uniformização criou “o pânico de sair do homogêneo”, com os jornalistas tendo medo de não dar aquilo que todos os outros publicam. Para ele, é preciso investir “naqueles jornalistas que farão a diferença por sua capacidade de encontrar bons assuntos e narrá-los bem.

Veja trecho da entrevista à Folha de S.Paulo.

Para além da tragédia
É preciso valorizar a narração de histórias no jornalismo, diz o mexicano Juan Villoro
SYLVIA COLOMBO – Folha de S. Paulo (21/8/2011)

A GUERRA AO narcotráfico no México já causou mais de 35 mil mortes, entre ações de criminosos e repressão do governo, desde que o presidente Felipe Calderón assumiu, em 2006. Entre os riscos que um repórter mexicano enfrenta estão sequestros, mortes e ameaças de bomba em redações de jornais.
Para o jornalista, escritor e dramaturgo Juan Villoro, 55, outro desafio jornalístico do momento é discutir como e em que linguagem a violência deve ser tratada na imprensa escrita e na internet.

Professor de literatura na Universidade Nacional Autônoma do México (Unam), Villoro colabora com várias revistas, como a peruana “Etiqueta Negra” e a colombiano-mexicana “Gatopardo”, e é colunista dos jornais “Reforma” (México), “El Mercurio” (Chile) e “El Periódico de Catalunya” (Espanha), além de escrever esporadicamente para “El País”.

Ficcionista premiado, conquistou o prestigioso Herralde, por “El Testigo” (2004). Também escreve literatura infantil e teatro. Até o final do ano, a Companhia das Letras deve lançar sua primeira obra no Brasil, “O Livro Selvagem”.

Villoro falou à Folha em Buenos Aires, onde veio assistir à estreia de sua peça “Filosofia de Vida” num teatro da tradicional avenida Corrientes, e participar de oficina da Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano.

Folha – Você diz que o jornalismo está fazendo muitas concessões à violência. De que modo?
Juan Villoro – No México há uma grande discussão sobre como retratar a violência do narcotráfico, mas acho que ela se aplica a vários países, como a Colômbia e o Brasil, por causa do narcotráfico e do crime organizado, e até mesmo a Londres, para usar um exemplo mais recente. É inevitável que, ao publicarmos notícias e fotos, amplifiquemos o efeito de um ato violento. Penso que há limites que deveriam ser discutidos, sob risco de fazermos mais propaganda da violência e alimentá-la. E o uso da linguagem tem um papel importante nisso. Por exemplo, em meu país, quando os traficantes dizem que sequestraram alguém, usam o termo “levantado”. E os jornais passaram a fazer o mesmo. É um erro, porque se trata de uma expressão que ameniza o horror do fato. Por outro lado, há uma busca pela audiência, hoje potencializada pela internet, que faz com que tudo o que tenha sangue seja valorizado. A máxima “if it bleeds, it leads” [se sangra, tem destaque] nunca foi tão verdadeira. O que muitos editores não se dão conta é que, se você busca ressaltar apenas o mais sangrento, corre o risco de provocar uma distorção da verdade, na qual os acontecimentos mais importantes são os violentos. Na verdade, a violência é sempre consequência de alguma coisa, parte de um contexto que precisa ser explicado.

Você diz que a internet está fazendo com que o jornalismo fique cada vez mais homogêneo. Por quê?
O que constato observando a imprensa europeia, norte-americana e latino-americana é que, mais do que nunca, para os veículos, parece ser necessário publicar aquilo que todos publicam. O acesso quase geral a informações homogêneas curiosamente criou um pânico de sair do homogêneo. Há um medo generalizado. Os jornalistas não podem se conformar com a ideia de que algo que está na capa de sete jornais não esteja na capa do seu. Então a reação é ir atrás do mesmo. Trata-se de um impulso de sobrevivência.

Isso é bom ou ruim?
Em certo sentido, é bom, porque é mais fácil que todos fiquem bem informados sobre acontecimentos de alcance mais global. Mas a fortaleza do jornalismo não está aí, e sim no oposto disso. O jornalismo pode fazer coisas únicas, tanto no papel como em formato digital, basta que haja investimento. É preciso valorizar a narração de histórias, pois elas dão sentido ao mundo. Creio que, nesse momento de confusão e transição, é preciso recobrar a confiança nos recursos do próprio jornalismo.

Pode dar um exemplo?
É possível aproveitar essa onda de mudanças num sentido positivo. Se é mais fácil hoje obter as notícias que todo mundo tem, por que não usamos menos gente nisso, aproveitando mais o material de agências internacionais? Se economizarmos no comum, é possível fazer com que a orquestra funcione quase sozinha e investir nos solistas, naqueles jornalistas que farão a diferença por sua capacidade de encontrar bons assuntos e narrá-los bem. Por um lado, é um jornalismo mais caro, gasta-se com a contratação de bons profissionais, tempo, viagens. Mas pense que se poderia economizar em outras coisas.

Veja a entrevista na completa na Folha de S. Paulo (para assinantes)

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