Plínio Bortolotti

Do lado esquerdo

Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 14/9/2014 do O POVO.

Arte: Carlus

Arte: Carlus

Do lado esquerdo
Plínio Bortolotti

Pesquisa O POVO/Datafolha identificou que o brasileiro encontra-se “à direita no comportamento e à esquerda em economia”, conforme noticiou este jornal na edição de domingo passado. Baseou-se o estudo em questões versando sobre temas sociais, políticos, culturais e econômicos. Resumidamente, o brasileiro mostrou-se favorável à intervenção do governo para reduzir as desigualdades e para incentivar a economia; porém, revelou-se conservador ou de “direita” em relação ao comportamento, ainda que, respondendo a uma das perguntas, 64% tenham declarado que “a homossexualidade deve ser aceita por toda a sociedade”.

Mesmo levando em conta a dificuldade de uma pesquisa com 10 questões dar conta de tema tão complexo, um aspecto parece ficar cada vez mais evidente. Arrefeceu o argumento de que não mais faria sentido o uso da classificação “esquerda” e “direita” para definir o lugar de cada pessoa ou movimento no espectro ideológico.

Com a queda do Muro de Berlim (1989), alguns teóricos preconizaram o “fim da história”, com “vitória final” do capitalismo sobre o socialismo, alegando que se tornara sem sentido a velha oposição entre uma ideologia e outra. Porém, a realidade mostrou-se mais complexa do que imaginava a utopia reacionária, que via superioridade absoluta no modelo de sociedade representada pelos Estados Unidos. Como se sabe, a realidade se encarregou de mostrar, muitas vezes tragicamente, que a história segue o seu curso.

Mas, afinal o que é ser de “esquerda” ou de “direita”?

Na década de 1990, com o debate ainda quente, o filósofo e político italiano Norberto Bobbio (1909-2004) publicou o livro Direita e esquerda – Razões e significados de uma distinção política, que rapidamente tornou-se um best-seller, traduzido em várias línguas. Nele, Bobbio lançou uma diatribe para confrontar aqueles que negavam a dicotomia direita/esquerda, dizendo-a obsoleta, ao mesmo tempo em que procurava definir os dois termos nos tempos pós “comunismo real”.

Primeiro Bobbio faz um comentário sobre o modo de raciocinar por “díades”, dizendo que não há disciplina que não seja dominado por algum tipo de dualidade, nos mais diversos campos do pensamento humano: da economia à filosofia; depois afasta o argumento de que a divisão do universo complexo da política em “esquerda” e “direita” seria simplista. “Seria como acusar de simplismo a distinção entre machos e fêmeas”, diz ele, admitindo, porém que a distinção não é perfeita, pois “nenhuma distinção jamais é perfeita”.

A diferença entre direita e esquerda, defendida por Bobbio, também é simples (porém não é simplista): na esquerda estariam os igualitários e na direita os inigualitários; o confronto se dá “entre aqueles que optam por uma política de inclusão e aqueles que optam por uma política de exclusão”. A esquerda parte do “reconhecimento que existem desigualdades injustificáveis, que a direita considera sacras e invioláveis, naturais ou inevitáveis, ao passo que a esquerda pensa que podem e devem ser reduzidas ou abolidas”.

Desse ponto de vista, a maioria dos brasileiros concorda com Bobbio, pois em todas as perguntas relativas à economia, as respostas foram em favor da ação do Estado para reduzir as diferenças.

NOTAS

Revolução Francesa
Os termos “direita”, “esquerda” e “centro” surgiram na Revolução Francesa (1789). Em relação à mesa da presidência da assembleia, à direita ficavam os representantes da alta burguesia (girondinos) que queriam estancar a revolução; à esquerda, os partidários do aprofundamento das propostas revolucionárias (jacobinos) e, no centro, os que oscilavam entre uma posição e outra.

Direita
Militante da esquerda, Bobbio diz que não fez juízo moral ao considerar o “inigualitarismo” como característica principal dos movimento de direita. Reconheceu que a direita não age assim por maldade, mas por ver as diferenças como úteis para promover melhorias na sociedade.

Esquerda
Bobbio defende que a esquerda é “igualitária”, mas não é “igualitarista”, ou seja, que os homens teriam de ser iguais “em tudo”, o que seria impossível, em vista da singularidade de cada pessoa.

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