Plínio Bortolotti

SUS – o plano de saúde de todos os brasileiros corre riscos

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Em uma dessas páginas da internet que cobrem “celebridades” – “Notícias da TV” – o ator Francisco Cuoco, 84 anos, reclamou do preço dos planos de saúde: “Ter plano de saúde é privilégio. Tem gente que paga R$ 4 mil, R$ 5 mil, é um absurdo, uma loucura. Estamos ferrados com a política que a gente tem”.

Não sei bem se “a política que a gente tem” refere-se à questão geral do país, ou especificamente aos planos de saúde. De qualquer modo pode-se considerar que estamos duplamente ferrados.

Mas existe um plano de saúde gratuito, a que todo brasileiro têm direito: o Sistema Único de Saúde (SUS), concebido na Constituição de 1988, e que universalizou o serviço de saúde no país.

O SUS tem áreas de excelência, como o tratamento da HIV-Aids e da esclerose múltipla e vem se tornando referência para a hepatite C. O SUS é reconhecido mundialmente pelo tratamento de primeira linha oferecido para essas doenças. Os pacientes recebem gratuitamente medicamentos que não teriam nos planos privados. Além disso, o SUS também oferece gratuitamente uma lista de 869 medicamentos para doenças crônicas.

Mas o mesmo tratamento de ponta não acontece na área da oncologia, por exemplo, e outros procedimentos complexos. Há também a dificuldade em conseguir atendimento nos hospitais e ambulatórios; em marcar consulta com médicos especializados; longo de tempo de espera para cirurgias. Pode ser posto na conta também a má gestão administrativa e financeira.

Para o médico sanitarista Carlile Lavor, coordenador na Fiocruz no Ceará, há duas coisas que todo mundo sabe em medicina: quando o tratamento é mais caro e quando é mais barato. Mais caro é na UTI e mais barato é na atenção primária, nos postos de saúde.

Ele diz que o Brasil optou pelo sistema mais caro, cuidando da pessoa depois que ela adquire uma doença grave, pois descuida-se da prevenção. Carlile foi criador, no Ceará, do programa Agentes de Saúde, depois adotado pelo governo federal com o título Programa da Saúde da Família.

Portanto, o SUS precisa de mais recursos e de boa administração para que, de fato, passe a atender a todos os brasileiros – ricos ou pobres – com o mesmo desempenho que mostra em algumas áreas específicas.

No entanto, a tendência do governo federal é empurrar as pessoas para os planos de saúde privados “populares” como foi a proposta enviado pelo Ministério da Saúde à Agência Nacional de Saúde Complementar (ANS).

Na prática, tais planos e clínicas privadas “populares” já são uma realidade do mercado. As pessoas pobres são obrigadas a gastar o que não podem para ter um atendimento médico decente, que deveria, obrigatoriamente, ser oferecido pelo SUS.

A falta de investimentos, a má administração e a pressão feita pelo “mercado”, pode levar a uma situação ainda pior, sucateando irremediavelmente SUS, essa proposta generosa da Constituição de 1988, de oferecer a todos brasileiro um dos bens mais preciosos de que ele pode dispor – a saúde.

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Notícias da TV – Francisco Cuoco fica indignado com preço de plano de saúde: “R$ 5 mil é absurdo”.

Agência Brasil – Planos de saúde populares podem estar disponíveis ainda este ano.

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8 Comentários

  • Joseval Viana disse:

    “No entanto, a tendência do governo federal é empurrar as pessoas para os planos de saúde privados “populares” como foi a proposta enviado pelo Ministério da Saúde à Agência Nacional de Saúde Complementar (ANS).”

    Seria interessante postar o link da proposta.

  • Felipe Mota disse:

    Plinio excelente leitura da situaçao da saude publica brasileira

  • Heleno disse:

    Plano de saude popular? So se o sus nao tirar sustento do meu bolso.

  • carlos disse:

    O pior é quando for aprovada a proposta de uma taxa que seria o equivalente a uma franquia, não sei se é por ano ou mensal?

    • Plinio Bortolotti disse:

      Franquia, normalmente, é pelo procedimento. No caso de seguro de carros, por exemplo, ocorre o seguinte: você dá uma batida e, suponhamos, que o custo do conserto seja R$ 5.000,00; se a sua franquia for, digamos, R$ 1.500 – o seguro só entra com R$ 3.500.

  • Felipe Lima disse:

    Já pagamos “em duplicidade” por uma série de serviços, de forma complementar ou substitutiva: educação, segurança, previdência, transporte, saúde. Nossa elite e nossos governantes, ao invés de trabalharem pela prestação de serviços públicos de qualidade, preferem auferir lucro como empresários atuando no lugar no Estado em privatizações, concessões e outras formas de prestação de serviço público. Além de precarizarem o serviço público, obtêm um serviço privado aquém do desejado, já que a lógica do mercado, pelo menos no que tange a esse segmento, prioriza a obtenção do lucro máximo e a qualidade mínima exigida pelos órgãos reguladores.

  • gil costa disse:

    Ótima matéria parabéns!

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