Artesanato da Mente

Não vou me adaptar ao mundo como está agora

Sempre que leio os livros do professor e filósofo Mario Sergio Cortella, aprendo muito com sua forma simples e profunda de abordar os mais diversos temas. Estava lendo o livro “Educação, convivência e ética”, e um trecho em especial me fez refletir bastante com relação ao nosso país e também o mundo na atualidade.

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“Há uma diferença entre adaptação e integração. Não somos um animal de adaptação, mas de integração. Quando alguém se adapta a uma situação, é por ela absorvido. Quando alguém se integra, passa a fazer parte. Quan­do adaptado, é parte, tem uma postura passiva. Quando integra­do, faz parte, a postura é ativa.”

Mario Sergio Cortella

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Nas ciências biológicas é colocado amplamente que nós, seres humanos, somos adaptáveis a todo e qualquer tipo de ambiente. Através da inteligência conseguimos sobreviver até mesmo nos locais mais inóspitos possíveis. Não é dessa adaptação que o Cortella e eu estamos falando.

Estamos falando no mais próximo da origem dessa palavra. Veja só! A palavra adaptação vem do latim adaptare, que significa “ajustar, encaixar, articular”. Ou seja, a palavra adaptação tem um significado bem próximo de acomodação, que por sua vez está relacionada com os móveis e cômodos de uma casa, ou com a acomodação das visitas nessa casa.

Percebe como são bacanas essas relações? Quando eu me acomodo numa casa, ou acomodo os móveis, eles ficam parados, a não ser que eu venha e faça alguma mudança.

E quando eu faço alguma mudança é porque estou me sentindo INCOMODADO. Ou seja, algo mexeu dentro de mim, algo me perturbou a situação de equilíbrio ou de estabilidade, me levando a alterar alguma coisa.

Desse ponto de vista, levando para a sociedade e os relacionamentos humanos, a adaptação é o processo de aceitar tudo que está acontecendo de uma forma passiva. Tipo assim: “As coisas são assim mesmo…”, “Não adianta eu tentar fazer nada porque vai continuar tudo do mesmo jeito…”.

Cuidado nessa hora! É exatamente esse tipo de atitude, que por sinal acomete a maior parte das pessoas, que tem levado os governantes a fazerem o que bem entenderem, porque sabem que não serão repreendidos como deveriam.

O que precisamos mesmo é nos integrar à sociedade, o que é bem diferente de se adaptar. Como eu gosto muito de matemática, aproveito até para lhe explicar pegando o gancho com meus queridos amigos Isaac Newton e Wilhelm Leibniz, criadores do Cálculo Diferencial e Integral. A definição das integrais nada mais é do que uma SOMA de infinitas partes minúsculas de uma área. Essas partes minúsculas, chamamos de infinitésimos. E a soma de todas as partes é o cálculo de uma integral que vai de um ponto A até um ponto B, referente aquela área específica. Não é interessante? Você está aprendendo até um pouco de cálculo avançado nesse texto! hehehe

 

Quando eu me integro à sociedade, eu sou um infinitésimo dela, e somo as minhas potencialidades, as minhas virtudes e as minhas ações, com a de outras milhões de pessoas. A soma de todas as partes compõem a sociedade como um todo.

Posso inclusive brincar com a matemática mais uma vez (Quem ler esse texto e estudar cálculo vai amar essa comparação)!

A integral das pessoas que vai da área do Oiapoque ao Chuí. Ou se quiser ser mais moderno, geograficamente falando! Do Monte Caburaí, em Roraima, ao Chuí, no Rio Grande do Sul, teremos como resultado a população brasileira!

Eu sou importante, você que me lê é importante. Todos nós somos importantes e somos parte desse todo. Integrando o que temos de melhor, e subtraindo aquilo que ainda é defeito, que é pequeno em nós, o resultado final será uma sociedade cada vez melhor, mais justa, fraterna e humana.

Com todas as manifestações, greves e reivindicações que vem ocorrendo nos últimos anos, além do fato de as pessoas quererem saber muito mais de política do que de futebol com o Brasil na Copa da Rússia, eu me sinto feliz em perceber que aos pouquinhos estamos deixando de ser passivos, ou seja, adaptados e acomodados, para sermos integrados, somando nossos potenciais.

Tenho feito isso como professor, psicanalista, escritor e agora também como estudante de Filosofia. Faça você da sua própria maneira essa integração. Utilize seus melhores talentos e potencialidades em prol de algo maior do que você mesmo!

Não dá mais para vivermos querendo ser como ilhas. Somos seres sociais, animais políticos, como diria Aristóteles. Só podemos ser a melhor versão de nós mesmos nessa polis (cidade), ou seja, sendo ativos, dando a nossa contribuição junto com todas as outras pessoas.

Reflita com carinho em tudo que foi colocado aqui e lembre-se: não vale a pena se adaptar a essa sociedade como está agora.

Concluo com uma frase que resume tudo o que coloquei, uma frase linda atribuída ao mestre Jiddu Krishnamurti.

“Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente.”

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