Artesanato da Mente

Não sacies a minha sede com as lágrimas de meus irmãos

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Estava lendo um dos livros mais incríveis de política e educação do mestre Paulo Freire chamado “Pedagogia do oprimido” e me peguei absolutamente reflexivo em uma citação que está logo no primeiro capítulo. Essa reflexão perece que nunca esteve tão atual como no momento em que vivemos, no qual estão escancaradas imensas corrupções e falcatruas.

A citação que ele coloca é do teólogo e escritor cristão São Gregório de Nissa. E pasme! Ela foi escrita no ano de 330 d.C, ou seja, há quase 1700 anos. Leia com bastante atenção…

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“Talvez dês esmolas. Mas, de onde as tiras, senão de tuas rapinas cruéis, do sofrimento, das lágrimas dos suspiros? Se o pobre soubesse de onde vem o teu óbulo, ele o recusaria porque teria a impressão de morder a carne de seus irmãos e de sugar o sangue de seu próximo. Ele te diria estas palavras corajosas: não sacies a minha sede com as lágrimas de meus irmãos. Não dês ao pobre o pão endurecido com os soluços de meus companheiros de miséria. Devolve a teu semelhante aquilo que reclamaste e eu te serei muito grato. De que vale consolar um pobre, se tu fazes outros cem?”

 São Gregório de Nissa – Sermão contra os Usurários

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Essa citação é o reflexo da nossa sociedade do espetáculo, parafraseando o escritor francês Guy Debord. Os homens e mulheres mais ricos da sociedade, em sua esmagadora maioria, se utilizam de um conceito bastante explorado pelo Paulo Freire nesse livro, que é a tal da falsa generosidade.

O que vem a ser essa falsa generosidade? É tentar se mostrar para os outros como alguém generoso, sendo que a grande verdade é exatamente o extremo oposto. Elas no fundo fazem pequenas atitudes aparentemente altruístas para tentar meio que diminuir o imenso peso na consciência por serem verdadeiros sanguessugas dos pobres.

O que boa parte dos políticos ou os mega empresários fazem, com suas sonegações de impostos, com aberturas de contas fantasmas, e acima de tudo, com o pagamento imoral que dão aos seus subordinados, é esse roubar dos pobres para que eles se tornem cada vez mais absurdamente ricos.

Estes que estou falando são como o Robin Hood às avessas, ou seja, roubam dos que não tem quase nada para engordar ainda mais a conta bancária dos que possuem muito mais do que precisam.

Existem diversos programas que são a explicação perfeita do que o São Gregório quis nos dizer. Ficarei apenas com três exemplos para não assustar demais os leitores: Criança Esperança, TELETON e Lar doce Lar do programa Luciano Huck.

Os três tem o intuito de espetacularizar esse ridículo que é a falsa generosidade. As instituições que a rede Globo ajuda com o Criança Esperança ou o SBT com o TELETON são as migalhas das migalhas das migalhas dos artistas que por lá estão, acrescidos do suor de centenas, milhares de brasileiros.

Assim como o “Lar doce Lar” é apenas uma mínima, uma quase infinitesimal parcela do que o programa ganha pela enorme audiência que tem nos sábados à tarde, dia no qual principalmente os mais pobres não têm muita opção de lazer, então vão passar o tempo na TV sonhando em um dia também receberem essa espécie de “graça divina” de ver o Luciano Huck bater em suas portas oferecendo uma reforma geral na casa…

Sei que esse texto tem um tom mais ácido, mas não poderia escrever sobre isso de forma apassivada. Às vezes a melhor forma de gerar consciência é através de “se ligas” como esse!

Agora você pode até me questionar (parece que estou lendo sua mente ao me questionar isso): “Mas Isaias? Pelo menos algo está sendo feito para ajudar os mais necessitados! Pior seria se eles decidissem não fazer nada…”.

Esse questionamento é bastante válido e respeito quem o tenha. No entanto, preciso discordar dele, pelos motivos que disse no começo, a ESPETACULARIZAÇÃO.

Se você for atrás de conhecer os grandes mestres da humanidade como Jesus Cristo, Buda, São Francisco de Assis, Mahatma Gandhi, Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dorothy etc. Verá que eles ajudavam os irmãos de forma genuína, seja através de alimentos ou cuidados, seja através da palavra amiga ou acolhida do sofrimento.

Jesus Cristo falava aos que curava “Vá e não contes nada a ninguém”, ou de forma ainda mais contundente: Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita”. ( Mateus 6: 2-3).

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As mais bonitas e mais operantes obras são aquelas feitas no anonimato, no silêncio do coração, ou para usar uma linguagem religiosa, são estas as que mais agradam a Deus.

Vemos os políticos corruptos estampando suas “belas obras” feitas enquanto estavam no mandato, mas o povo brasileiro, de um modo geral, tem dificuldade de entender que o pouco que é feito é o mínimo (talvez até mesmo abaixo do mínimo em alguns casos) que eles deveriam fazer em benefício da população.

Eu sou apaixonado pelas obras de Platão e Aristóteles, dois sábios da humanidade. Ambos dizem em seus livros que os melhores políticos são os mais abnegados, ou seja, são aqueles que não querem nada apenas para si, são desapegados, tudo que querem é pensando no coletivo, no bem comum, no mundo sem privilégios.

Infelizmente estamos muito longe dessa realidade que eles falam tão bem em suas obras. Não é à toa que até hoje se diz de forma pejorativa que alguém está sendo muito platônico ao pensar em algo, ou esperar o amor de alguém que não corresponde da mesma maneira etc.

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Termino esse texto mais crítico reforçando a frase do título, que mais e mais pessoas tenham essa coragem de dar esse basta no status quo, que os opressores insistem em querer perpetuar: Não sacies a minha sede com as lágrimas de meus irmãos”…

Que como irmãos possamos crescer juntos, vivendo a verdadeira generosidade, a verdadeira partilha, o verdadeiro amor, que tão bem o mestre Paulo Freire nos ensinou ao longo de toda a sua vida…

 

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