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Casamento cósmico

“O que o Santo Graal simboliza é a mais alta realização espiritual de uma vida humana […] Isso tem a ver com a superação das mesmas tentações que o Buda venceu: o apego a isso e a outros detalhes da vida que o tiraram do rumo” (Joseph Campbell em Reflexões Sobre a Arte de Viver)

Os mestres da arte de viver frequentemente nos lembram que mesmo a mais alta realização espiritual na vida não pode se desprender da jornada em si. Alguém pode ser atingido na estrada para Damasco, mas a iluminação espiritual é igualmente sobre o que acontece depois e para o resto de sua vida. O segredo da arte parece estar dentro da capacidade de refletir, uma forma de recordação que exige que a pessoa olhe para trás e avance continuamente no tempo.

Mas qual é a percepção fundamental que leva à realização da vida? Para começar, a resposta a essa pergunta não pode ser algo tão complicado e obscuro, que apenas alguns “especialistas místicos” possam ter acesso a ela. Por outro lado, não pode ser algo tão simples e básico, que não tenha o poder de desafiar todo o nosso ser, deixando de nos levar à nossa maior aventura. Como a busca pelo Santo Graal, a questão do sentido da vida é projetada para ser ao mesmo tempo: completamente mundana e familiar, bem como absolutamente transcendente e fascinante. Como quando nos apaixonamos pela primeira vez, ao longo da jornada para a realização, o mundo inteiro é transfigurado, até seus mínimos detalhes, no esplendor do Um.

O casamento

O fato de o próprio casamento simbolizar tal ideia paradoxal — a coabitação humana mundana e a realização espiritual mais elevada — não é uma surpresa total. Esse é, afinal, um conceito intercultural que mistura a divindade do amor com a profanidade da vida cotidiana. Em sua dimensão arquetípica, portanto, até mesmo o casamento mais comum aponta para o milagre do sagrado — uma percepção do casamento do finito com o infinito, que detém a chave dos mais baixos e mais altos mistérios da vida humana. Um símbolo de transcendência e imanência ao mesmo tempo, o casamento encapsula nosso supremo cumprimento espiritual e biológico sem contradição.

Casamento e morte

Sendo ao mesmo tempo real e ideal, a profundidade de um casamento não requer ideologia religiosa para provar sua essência e propósito vitais. Juntando o profano e o sagrado, a sexualidade e o amor, o casamento leva o egoísmo à extinção na fusão com o todo maior. Por essa razão, o casamento também está intimamente ligado à morte, aquela mãe de todas as cifras, que é o pano de fundo primordial oculto de toda experiência metafísica.

Joseph Campbell também estava ciente da misteriosa conjunção do casamento e da morte, do ponto de vista mitológico. Ele viu como o seu conteúdo metafísico é levado através de  suas funções básicas, o impulso para propagar a espécie e a criação de filhos:

Matrimônio e Matança estão relacionados. O Matrimônio é o assassinato da sua divisão. Você está se tornando uma parte de uma unidade maior. Você não é mais apartado. No Egito, Osiris gera seu filho, o herói Horus, quando já está morto. Quando você gera um filho, agora você é secundário. O filho é primário, e você está lá como uma presença adotiva; você não é mais o número um. E isso é a morte para a sua existência primária, você vê? Então essas duas coisas estão fortemente ligadas; cerimônias de morte e casamento têm muito em comum”.

A lógica autossacrificial do mito e do ritual a este respeito é particularmente clara, mas Campbell eleva ainda mais a aposta: o casamento não é uma questão de especulação ociosa, mas um ato premeditado de matar o ego de alguém que gera uma nova vida. Consequentemente, a morte sacrificial do ego alienado resulta na capacidade de promover o futuro da nossa espécie. Neste enigma de poderosos opostos, a realização final e o significado da vida podem ser compreendidos. Ao desenvolver a noção da pulsão de morte (todestrieb), Freud viu nos processos da morte mais do que uma imagem: ele viu na morte um processo dinâmico de autotranscendência que é interno à própria vida, não alguma intrusão que vem de fora e que interrompe a vida, mas uma expressão do impulso interior da vida para a descendência que retorna à sua origem material:

“Se tomarmos como verdade que não conhece exceção o fato de tudo o que vive morrer por razões internas, tornar-se mais uma vez inorgânico, seremos então compelidos a dizer que ‘o objetivo de toda vida é a morte‘, e, voltando o olhar para trás, que ‘as coisas inanimadas existiram antes das vivas’” (Freud em Além do Princípio do Prazer).

Jung, por sua vez, contava com a resistência cultural a esse problema, tão pouco compreendido em geral e menos ainda pelos que mais se beneficiariam:

Estamos tão convencidos de que a morte é simplesmente o fim de um processo, que comumente não nos ocorre conceber a morte como um objetivo e uma realização, à medida que fazemos sem hesitação os objetivos e propósitos da vida juvenil em sua ascendência”.

Morte como meta e realização da vida, como o significado final? Uma boa morte — como uma boa vida — depende da nossa capacidade de deixar ir. Embora possa ser mais difícil vender o sentido da vida quando o seu propósito é simplesmente deixá-la ir, esse é um insight fundamental em nossa condição mortal com o potencial de transformar nossa alma imortal. A prontidão é tudo.

 [NORLAND TELLEZ é uma artista e professor com mais de 20 anos de experiência no setor de animação. Ele se formou na CalArts em 1999 e passou a trabalhar como animador em 2D para a Walt Disney Feature Animation, assim como para a Warner Brothers. Também completou um mestrado e doutorado no estudo da mitologia no Pacifica Graduate Institute com uma dissertação sobre o Popol-Vuh, um clássico da mitologia maia. Recebeu a Bolsa de Pesquisa Joseph Campbell em 2006. Fonte do texto: www.jcf.org

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