Cinema às 8

“Estranhos no Paraíso”: um pouco mais de nada

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Nada em uma praia aleatória na Flórida

Nada em uma praia aleatória na Flórida

Antes de Noah Baumbach, havia Jim Jarmursh. E, para nossa sorte, ainda há Jim Jarmusch. Era 1984, mesmo ano em que os irmãos Coen surgiram com “Gosto de Sangue” (1984), vencendo o Festival de Sundance ainda no berço. Na época, o hoje afamado cinema independente contemporâneo norte-americano era mais conceito que prática. Uma amálgama das décadas de produções de baixo orçamento com um parco interesse do grande público. Nada de investimento de grandes estúdios, que só começou na década de 1990. Foi nesse árido terreno que Jim Jarmusch, um jovem norte-americano com ascendência alemã, tcheca e irlandesa, resolveu transformar em longa o seu curta “Stranger Than Paradise” (1983): uma viagem meio existencialista, meio humorística sobre vidas sem rumo.

Hoje, “Estranhos no Paraíso” é um marco e o Jim Jarmusch um ícone. E, mais de 30 anos depois, o filme que arrebatou plateias segue vivo, novo, atual. Ali está mais do que a base de quem o cineasta viria a ser, mas uma verve que provava que ele já era “algo”. A trama segue Willie (John Lurie), um húngaro que vive uma vida pacata em Nova York, apesar de virtualmente não fazer nada da vida. Sua tranquilidade é afetada pela prima Eva (Eszter Balint), que desembarca de Budapeste direto na quitinete de Willie.

Equilibrado entre o humor negro e o drama estranho, o filme se divide em três segmentos. No primeiro, Willie, Eva e Eddie (Richard Edson) pouco fazem em Nova York. No segundo, um ano depois, os dois amigos visitam Eva em Cleveland. No terceiro, os três vão para a Flórida. Juntos, eles passam por muito carteado, trambiques leves e constrangimentos mútuos.

Nada em um bairro perdido de Nova York

Nada em um bairro perdido de Nova York

Por mais despretensioso que soe (e seja), existe uma inteligência em tudo pensado por Jarmusch. A noção geral é de subverter completamente todas as expectativas. Existe um sadismo no fazer cinematográfico. Willie renega a própria família, se recusa a ser chamado por seu nome de batismo (Bela) e não oferece a mínima simpatia à prima adolescente. Ela, por outro lado, nunca se mostra perdida, mas também não demonstra qualquer obstinação. Parece que existe apenas um latente sentimento de inércia movendo a existência dos personagens. Soa triste? Para eles, não. Até essa expectativa é quebrada.

Em três diferentes cenários, os personagens exploram o vazio. Note-se, por exemplo, a visita de Willie e Eddie a Cleveland. Em meio a uma nevasca, eles visitam o principal ponto turístico da cidade, o lago Erie. Repito: nevava. Muito. Logo, temos três personagens admirando uma imensidão de branco. A cada ponto que visitam, eles revisitam o nada dentro de si.

Nada no lago Erie, em Cleveland

Nada no lago Erie, em Cleveland

A expectativa geral seria de que o trio superaria a estranheza e viveriam uma experiência única de aproximação. Mas um dos raros momentos em que Willie busca agradar Eva é quando tenta contar uma piada. Tenta, já que ele não lembra de muitos detalhes. Mas, claro, nada é exatamente o que parece ser. Podia render um drama triste, mas rende uma comédia recheada de apatia – mas nunca apática.

Para ser um filme sobre fracasso, os personagens precisavam de algum desejo. De certa forma, soa como o que Baumbach faz hoje com obras como “O Solteirão” (2010) ou “Frances Ha” (2012) ou os irmãos Coen em “Um Homem Sério” (2009) ou “Inside Llewyn Davies: Balada de um Homem Comum” (2013). É uma leitura transversal de um sentimento geral de apatia. E mesmo diante de tanto tédio, o filme consegue ser hilário. Todas as sequências com tia Lotte são impagáveis. Todos as resoluções surreais para os problemas de Eva são tão erradas quanto cômicas. Toda a relação de Eddie e Willie é completamente errônea e acertada.

Com nada de roteiro e nada de desenvolvimento, Jarmusch praticamente começou a carreira impondo um padrão de excelência difícil de seguir. O bom de poder (re)ver sua obra seminal 32 anos depois é ter a certeza que aquela jovem carreira ia dar certo, e render filmes incríveis como “Homem Morto” (1995), “Flores Partidas” (2005) e “Amantes Eternos” (2013).

(andrebloc@opovo.com.br)

Cotação: nota 8/8

Ficha técnica
Estranhos no Paraíso
(EUA, 1984), de Jim Jarmusch. Comédia/Drama. 89 minutos.

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