Cinema às 8

“Sing Street: Música e Sonho”: cumplicidade e arte

Toda a gangue da banda Sing Street reunida

Toda a gangue da banda Sing Street reunida

Um garoto e uma garota se conhecem. Quase sempre começa assim. A simplicidade desse encontro guia grande parte das histórias românticas, tanto reais quanto imaginárias. “Sing Street: Música e Sonho”, de John Carney, não foge do clichê. Aliás, o filme se empodera do chavão “boy meets girl” para se mergulhar em uma trama genuína. Algo original que parte do repetitivo. Indicado ao Globo de Ouro, o filme está disponível atualmente na Netflix.

Um dos fatores mais importantes e significativos do longa é o background, o terreno em que a trama se desenrola. Conor (o ótimo Ferdia Walsh-Peelo) é um irlandês de 15 anos que usa a música para emudecer as constantes brigas entre pai e mãe. Era crise na Irlanda de meados da década de 1980 e vários irlandeses emigravam para a Inglaterra em busca de uma oportunidade. Por falta de dinheiro, Conor muda de uma escola jesuíta para um violento colégio comandado por um ditatorial padre católico.

A química de Walsh-Peelo e McKenna é tanto que os jovens já têm feito shows

A química de Walsh-Peelo e McKenna é tanto que os jovens já têm feito shows

É nessa escola que ele conhece Barry (Ian Kenny), que lhe mostra atalhos para sobreviver ao roteiro de bullying e humilhação, e é na saída de lá que ele vê Raphina (Lucy Boynton), uma garota que nunca o notaria em condições normais. Como todo ser sensato do mundo faria, ele mente. Em troca do telefone da garota, uma aspirante a modelo, ele inventa ter uma banda e querer fazer um clipe. Ou melhor, ele nem mente: só inverte a ordem dos fatores. Primeiro ele diz que o projeto musical existe, depois trata de fazer a afirmação ser verdade.

Assim como em dramas musicais anteriores (“Apenas uma Vez”/2007; “Mesmo Se Nada Der Certo”/2013), o roteirista, diretor e compositor John Carney acerta em cheio nas músicas. Claro, tudo parece ter qualidade demais para a iniciante Sing Street, mas ainda assim é divertido. O cineasta brinca com as referências. Se Brendan (Jack Reynor) joga um LP do The Cure no irmão Conor, o visual precisa se encaixar na tristeza alegre do som de Robert Smith e cia. Se a referência é Duran Duran, cabe a eles “envisionar” o futuro do pop. E assim por diante. Existe um jogo inteligente de cumplicidade entre Conor e o irmão e que dá o tom de ternura de “Sing Street”. Paralelamente, a rápida afinidade entre Conor e Eamon (Mark McKenna), Lennon e McCartney do grupo musical, cria um paralelismo interessante.

O background familiar, em especial Conor e Brendan, é um dos acertos do filme

O background familiar, em especial Conor e Brendan, é um dos acertos do filme

Aos 15 anos, Conor, Eamon, Ngig e o restante da banda entendem mais sobre rock do que grande parte do mundo hoje em dia. Ali, não há espaço para exclusão, segregação. É um conjunto de pessoas que precisam da arte para se expressar, para ter voz. Vez ou outra, cabe ser ridículo e usar maquiagem borrada para ir para a escola – e o figurino brinca bem com a estética exagerada dos anos 1980. Mas, acima disso, é estar junto e ter uma voz. Como só um adolescente conseguiria, o filme prima por mostrar sentimentos e emoções artísticas genuínas, em especial no belo ápice da trama. Não é um longa saudosista sobre a musicalidade e breguice dos anos 1980. É uma obra sobre aquele momento especial em que um jovem (ou um grupo de jovens) descobre quem eles querem ser pelo resto da vida. E se atiram atrás deste sonho.

Para priorizar o sentimento, no entanto, o filme toma uma ou outra liberdade excessiva. Vez por outra, o roteiro parece esquecer da crise financeira familiar ao mostrar investimentos sequenciais de Conor na banda, por exemplo. Alguns subtextos sobre um passado abusivo de Raphina também são suprimidos para se explorar melhor os “dramas leves” de Conor. O design de som também tem seus saltos, com a versão ao vivo de uma canção ganhando um playback que soa falso. Mas, para além disso, “Sing Street” consegue, de forma didática, mostrar para quem quer que vejo porque a arte foi, é, e sempre será essencial. É o ar, o pão de quem tem muito a dizer e não sabe como.

(andrebloc@opovo.com.br)

Cotação: nota 6/8.

Ficha técnica
Sing Street: Música e Sonho (IRL/ING/EUA, 2016), de John Carney. Comédia/Musical. 12 anos. 106 minutos.

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