Cinema às 8

“Mãe!” é festival catártico de simbolismos

Em meio à invasão de sua própria casa por desconhecidos e com um marido que parece ignorar tudo que lhe é dito, uma mulher sem nome se depara com algo em formato de coração surgindo no piso de sua casa. Apesar de ter construído aquele lar, conhecendo cada canto daquela casa, aos poucos a personagem perde os laços que criou com o ambiente, enquanto o distante marido se beneficia cada vez mais das visitas para inflar seu ego de escritor.

Se focando em simbolismos pouco sutis a cada cena, “Mãe!”, novo longa do nova iorquino Darren Aronofsky, traz Jennifer Lawrence no papel da mulher que perde a casa e Javier Bardem como o escritor seletivamente surdo. Com planos longos e uma câmera fechada no rosto da protagonista durante 70% do filme, “Mãe!” é uma experiência fílmica com críticas intensas ao cristianismo e ao papel secundário da mulher na sociedade. Se, por um lado, os argumentos do diretor são válidos, por outro, o excesso de estilo das cenas acaba por ofuscar as mensagens que o longa procura passar.

Soando pretensioso durante boa parte da projeção, o filme perde parte do seu impacto por ser previsível em muitos aspectos. A própria cena inicial já telegrafa para o espectador o que ele pode esperar do desfecho, o que acaba por ser decepcionante. “Mãe!”ganha pontos pelas ótimas performances de seus protagonistas. Lawrence é competente durante todo o longa, mas brilha de fato a partir do final do segundo ato, enquanto Bardem mantém uma interpretação convincente de um homem hétero estúpido que ignora os apelos da esposa.

Apesar da pouca relevância dos coadjuvantes para o total da obra, destaque para Michelle Pfeiffer, que continua a mostrar que não há outra atriz em Hollywood capaz de fumar tão bem um cigarro.

Transitando entre o drama familiar e o horror psicológico, “Mãe!” passa de forma competente todo o horror sentido pela protagonista. A perda do lar e o distanciamento do marido reverberam no seu comportamento a todo instante, fazendo com que o espectador consiga sentir a angústia dela. As referências bíblicas são intensas e, em sua maioria, bem explícitas. No geral, o filme se apresenta de forma mais complicada do que realmente o é. Uma rápida reflexão já é suficiente para revelar quase todas as referências que Aronofsky utilizou para compor seus personagens.

Destaque também para a direção de fotografia, que aliada aos figurinos compõem um cenário quase totalmente cinza. A exceção ocorre nos momentos em que fogo e sangue surgem na tela, trazendo com impacto suas respectivas tonalidades. Em meio aos simbolismos, chega a ser cômico que o personagem de Javier seja tão afetado pelo fogo, dada sua clara inspiração.

O excesso de informação acaba por fazer o filme perder ritmo, deixando-o arrastado em dados momentos, mas nada que prejudique a experiência final. Catártico, exagerado, prepotente e impactante, “Mãe!” dividiu audiências e crítica. O resultado da mistura simbólica cristã de seu diretor é um filme não revolucionário, mas com poder de se tornar o novo queridinho das rodas de conversa cinéfilas.

Cotação: nota 6/8

Ficha técnica

Mãe! (Mother!, EUA, 2017), de Darren Aronofsky. Horror/Drama. 18 anos. 120 minutos. Com Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer e Kristen Wiig.

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