Discografia

MÚSICA EM CORES: O romance do Pavão Mysteriozo (1973)

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Os anos 1970 foram muitos generosos com a música cearense. Boa parte dos nomes que temos como fundamentais para compreender a música pop/popular que se fazia nesta ponta do Brasil tiveram nesta época um período de grande efervescência, inspiração e reconhecimento. Foi assim com Fagner, que lançou seu primeiro álbum (Manera Fru Fru Manera) em 1972. Dois anos depois era a vez de Belchior se apresentar pela gravadora Chantecler. Amelinha também chegaria pouco depois, com seu delicioso Flor da paisagem. Também é preciso juntar a essa lista a obra mais marcante de Ednardo.

Lançado em 1974, O Romance do Pavão Mysteriozo é uma espécie de hinário nordestino, uma sequência de canções, que, juntas, formam um corpo lógico e indivisível. Da delicadeza à pancada, trata-se de um trabalho entranhado de personalidade e apego à terra de onde ele saiu. Isso já fica estampado na contracapa, onde Ednardo olha para o céu clareado pelo sol, com o violão nos braços, sentado numa rede.

Com a voz no auge da pureza, o cearense abusa dos agudos para dar mais emoção a A palo seco e Dorothy Lamour. A primeira é uma das mais famosas composições de Belchior e uma rara canção que foi gravada pelos três pontas de lança da música cearense daquela geração: Ednardo, Fagner e Belchior. Com todo respeito aos outros dois, é de Ednardo a melhor gravação cujos vocais duelando com a guitarra de Heraldo do Monte extrai uma emoção única da canção. Já a segunda é uma parceria de Fausto Nilo e Petrúcio Maia que ganhou aqui um dos arranjos mais inspirados da música brasileira. Dividido em três partes, a canção vai nascendo como um toada lenta, ganhando velocidade até se tranformar num belíssimo bolero. Beliscando o frevo de Recife, ele ainda pula de sombrinha em Mais um frevinho danado, antes de cair numa tristeza profunda em Ausência.

No entanto, nada impressionou mais o Brasil do que a levada dolente do maracatu cearense sintetizada na faixa título. Pavão mysteriozo é um desses gritos presos no peito que, quando começam, logo todos cantam junto. Escolhida para encerrar o disco, a faixa ficou ainda mais famosa quando chegou à abertura da novela Saramandaia. Em seguida conquistou o mundo em arranjos variados, um deles feito pelo maestro francês Paul Mauriat. Cantada ainda hoje como um dos nossos clássicos, Pavão Mysteriozo é tão importante para a MPB quanto o próprio Ednardo.

E tudo é arte nesse primeiro disco solo de Ednardo. O título faz referência a um famosos folheto de cordel e a canção faz uma crítica inteligente à ditadura militar. “Eles são muitos, mas não podem voar”, apontava o cearense com sua esperteza. Pavão Misterioso, assim como Carneiro, são provas da capacidade única deste engenheiro químico aposentado da Petrobrás de nordestinizar o pop, misturar referências universais pra falar de sua terra – vide “As coisas vem de lá, eu mesmo vou buscar. E vou voltar em vídeo tapes e revistas supercoloridas”.

O Romance do Pavão Mysteriozo veio um ano depois de Meu Corpo Minha Embalagem Todo gasto na Viagem, álbum inaugural da turma de artistas que seria chamada de Pessoal do Ceará. Se destacando no disco como cantor, músico e compositor, Ednardo iniciou uma estrada que falava do Nordeste sob um olhar crítico e plural. Depois do auge nos anos 1970, foi se afastando do sucesso popular e tornando um artista de aparições raras. Mas basta que suas canções toquem para que o público se reúna e aplauda sua obra.

Faixas de O Romance do Pavão Mysteriozo (1974):
1. Carneiro (Augusto Pontes/ Ednardo)
2. Avião de papel (Ednardo)
3. Mais um frevinho danado (Ednardo)
4. Ausência (Ednardo)
5. Varal (Tânia Cabral/ Ednardo)
6. Dorothy Lamour (Petrúcio Maia/ Fausto Nilo)
7. Desembarque (Ednardo)
8. Trem do interior (Fausto Nilo/ Ednardo)
9. Alazão (Brandão, Ednardo)
10. A palo seco (Belchior)
11. Aguagrande (Augusto Pontes/ Ednardo)
12. Pavão Mysteriozo (Ednardo)

>> Pavão Mysteriozo (Ednardo) por Carlus Campos