Discografia

O Filho do Holocausto remonta sem didatismo a vida de Jorge Mautner

158047Tenho Jorge Mautner na conta de uma das cabeças mais privilegiadas da cultura brasileira. Musicalmente inclassificável, intelectual atuante, revolucionário do desbunde, ele faz seu trabalho sem se preocupar em que prateleira vai ser colocado. Filho de um judeu austríaco com uma católica iugoslava, por muito pouco ele não nasceu em território desconhecido, sobre o mar, enquanto seus pais viajavam para fugir dos horrores do nazismo, que já havia devastado boa da família. No entanto, na contramão da desgraça genocida, que sorte, ele nasceu no Brasil. O que aconteceu deste dia em diante é conhecido por alguns poucos que se ligam nessas figuras marginais (ou malditas, como alguns preferem) e agora serviu de mote para o documentário O filho do Holocausto. Dirigido por Pedro Bial e Heitor D’Alincourt, o filme flutua entre méritos e deméritos, mas já ganha a plateia por abordar uma história tão pouco conhecida e um artista que, mesmo com tantas décadas de carreira, permanece reservado às discotecas mais atentas. As imagens raras e os cenários montados para os depoimentos compõem um caleidoscópio interessante para a história que se baseia na autobiografia homônima lançada em 2006. Enquanto o livro narra episódios que aconteceram entre 1941 e 1958, o filme segue um fluxo meio atemporal com idas, vindas e reflexões entrecortadas por números musicais. Este acaba sendo o ponto máximo deste Filho do Holocausto, principalmente para quem tiver a sorte de conferi-lo nos cinemas. Ver Mautner na telona, escudado por uma banda de virtuoses contemporâneos – Alexandre Kassin (baixo), Pedro Sá (guitarra), Domênico Lancellotti (bateria) e Berna Ceppas (teclados e efeitos) – transforma sua música em algo ainda maior. Claro, o mestre saudoso Nelson Jacobina, parceiro fiel desde os primeiros anos de música, falecido ano passado, também comparece. Sua presença magra e desfigurada pelo câncer, torna a parceria com Mautner ainda mais heroica. Além disso, mesmo com o semblante debilitado, seu dedilhado certeiro e delicado continua intacto e, agora, congelado em película para ser futuramente redescoberto por outras gerações. Ao lado dessa banda dos sonhos dos cult bacaninhas modernos, o homenageado desfila canções como Maracatu atômico, Lágrimas negras e Todo errado. Em algumas delas, recebe o reforço luxuoso de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Com eles, Mautner revê seu hermético filme O demiurgo, feito no exterior para celebrar o encontro com os amigos baianos tropicalistas. Aliás, é hilário ver Gil assumindo que não entendia o filme. A medida que o filme vai se desenrolando, a produção de Mautner também vai ganhando reavaliações de vários personagens. E é aqui onde entra o calcanhar de Aquiles de O Filho do Holocausto. Os convidados invadem a tela sem serem apresentados. O artista plástico Aguilar, por exemplo, não é tão pop como Caetano que dispense apresentação. Ainda assim, faltam legendas que digam quem é o tal senhor de óculos sui generis que fala de jeito engraçado. E assim acontece com outros falantes do filme. No entanto, ao que parece, isso faz parte do que se propõem este Filho do Holocausto. Quem pensa que vai sair do cinema conhecendo e entendendo profundamente o biografado está muito enganado. A música se sobressai numa história que é contada de forma picotada, em alguns momentos com o próprio Mautner lendo trechos do seu livro. Ainda assim merecem destaque cenas como a conversa com a filha Amora. Num misto de orgulho e arrependimento, pai e filha botam antigas mágoas pra fora e acabam se entendendo ali, diante da plateia. Imagine que um dos maiores intelectuais brasileiros acaba se rendendo aos olhos fundos e chorosos de Amora quando esta lhe fala sobre o incomodo de ver os pais nus dentro de casa ou de sunga para ir buscá-la no colégio. Sem esconder um sorriso no canto da boca, Mautner ouve, pede desculpas e segue sendo um ponto de ruptura na intelectualidade careta.