Discografia

Gustavo Portela e um picadeiro de infortúnios

gustavo portela

Música, teatro, muitas cores, imagens e diversão. Assim como é o trabalho dos profissionais do circo, é Le son sur scène (do francês, “o som em cena), espetáculo músico/cênico de Gustavo Portela. A pluralidade daquele universo mítico, mágico e, nos bastidores, áspero e trabalhoso, funciona como pano de fundo para o que o ele tem levado ao palco e, agora, para seu segundo disco, ora distribuído gratuitamente pela internet, mas já aguardado em formato físico.

Antes mesmo do disco, pluralidade já era uma marca deste artista de quase 30 anos, que há 10 milita na cena cearense. Cantor, compositor, ator, instrumentista são os pilares deste multiprofissional, que, com o tempo, agregou ainda as funções de fotógrafo e cineasta. De alguma forma, essas funções se encontram em Le son sur scène, que chega cerca de três anos depois de Movimento. Se na estreia, Gustavo Portela compensou a inexperiência convidando mais de 30 músicos para as gravações, o novo trabalho usa cerca de metade da “mão de obra” para dar seu recado.

Acústico em primeiro plano, Le son sur scène tem toques leves de eletrônica e uma série de intervenções sonoras que ajudam a dar movimento às 10 faixas. Embora leve muito a sério seu trabalho, essas intervenções servem para brincar com as situações, rir das tragédias cotidianas e dar fluência aos personagens mais improváveis que aparecem. Um deles é o “pacato cidadão” Toninho Beruaite, que é também o carrasco sanguinário personagem de Canto mórbido. Composto por Orlangelo Leal, da trupe Dona Zefinha, este bolero meio tango poderia figurar entre as faixas de Cadáver pega fogo no velório (1983), disco antológico de Fernando Pellon.

gustavo portelaBem longe das perversidades de Toninho, Le son sur scène vem costurado por branduras e alguma melancolia bem dosada. Pontuada pela tuba de Samuel Furtado, Felicidade (Aldenor Paiva) é um exemplo, que trata de uma das maiores ambições da humanidade pregando a complacência e o cuidado. “Calma muita calma pra lidar com tal coisa assim”, diz como quem já levou algumas rasteiras da tal felicidade. Logo na segunda faixa, essa felicidade vai embora para dar lugar o ritmo acelerado e urgente de Virtude (Aldenor Paiva/ Gustavo Portela). Com voz embargada, Gustavo brinca com seu desamparo. “Tem que usar uma virtude, tomar uma atitude pra ver você voltar a rir”, aconselha Rafael Martins com voz operística.

No momento seguinte, tudo se desfaz para entrar o clima misterioso e urbano de O carro (Jefferson Portela). Uma ode que apenas observa os engarrafamentos, sem se comprometer. Cheia de malandragem e cinismo, Ela tem dono (Nigroover) trata das pequenas traições juvenis. Amores mal resolvidos também enchem o rock Tarja preta (Gustavo Portela) de imagens fortes e tom de desabafo. Se o cantor, chorando descontroladamente, admite não saber se é capaz de perdoar uma cachorrada, na canção seguinte ele anuncia que é tempo de assumir o lado canino. Tiempo de perro (Claudio Mendes/ Gustavo Portela) é interpretada por Cláudio Mendes e Lorena Nunes num espanhol macarrônico. Quando até pulgas trazem saudade, é por que a coisa tá séria.

Mais esperançosa, A visita (Pantico Rocha/ Marcus Dias) pode ser uma forma inusitada e criativa de dar uma cantada em alguém. “Uma vez estando em sua casa, quero que você me faça ser alguém do seu convívio”, solicita. O arranjo orquestral emoldura de beleza esta que é uma das letras mais inspiradas de Le son sur scène. Pra encerrar, dois reggaes de Danilo Guilherme. Take it easy Caetano tem sua compreensão comprometida pela voz grave, enquanto Preto colorido fecha os 34 minutos de música jogando fora as tristezas e anunciando tempos mais leves.

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A presença, principalmente, de uma tuba nos arranjos expõem a necessidade de Gustavo Portela de sair do lugar comum. Tem o clima indie pop comum na cena contemporânea, mas busca o caminho criativo de gente como Mutantes ou Beach Boys. Fato é que o ponto alto de Le son sur scène fica para a teatralidade e para o molho circense, que ainda rende muito pano pra manga. Nesse último ponto, quanto mais puder ser explorado, melhor.