Discografia

Fechando a conta

Seguem abaixo alguns comentários sobre alguns discos que recebi neste fim de ano da gravadora Kuarup. Trata-se de uma seleção de novos compositores e intérpretes brasileiros. Em outro email, vão alguns relançamentos da mesma gravadora, que fazem parte do mesmo pacote que relançou Live at  the Rio Jazz Club, álbum solo do incomparável Baden Powell, já comentado por aqui.

> Bruna Moraes – Olho de dentro

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=a1G0UC6YtPY[/youtube]
Com apenas 18 anos, a paulistana tem algo de Maria Rita em seu timbre. Mas é Maria Rita mesmo, não Elis Regina. Para quem acha que é a mesma coisa, não é. Produzido por Pedro Baldanza, Olho de dentro mescla faixas inéditas, compostas pela própria Bruna, com clássicos da MPB. No primeiro grupo, está a suingada Bem verde e a melosa Muito mais. Como autora, Bruna Moraes ainda busca um rumo, mas não faz feio. Apenas falta uma ousadia que se esboça em Iansã. Como intérprete, ela tem uma rouquidão sutil que dá sensibilidade às canções. Com esse recurso, ela vai de um óbvio Chico Buarque (Sem fantasia, em dueto inevitável com Lenine Guarani, filho do compositor Taiguara), até um sempre esquecido Taiguara (Levante do borel). O arranjo tangueado da primeira parece original e ganha com o marcante riff de baixo elétrico.

> Leo Versolato – Santo Bom

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=KNTDbe0wFvQ[/youtube]
Paulistano de 26 anos, Leo Versolato tem sobrenome de respeito. Ele é filho de Ubaldo Versolato, músico que tem no currículo trabalhos ao lado de Roberto Carlos e Banda Mantiqueira. Convivendo com música desde a infância, ele estudou em conservatórios e escolheu o baixo como principal instrumento. Essa opção explica a divisão e ritmo de suas com posições. Em Santo bom, são 12 divididas entre vários parceiros. A voz de Leo é um ponto baixo, principalmente pela proximidade com a de Jorge Vercilo. Mas há climas interessantes, como em Reduto de farol, guiada por um piano martelado. De fato, o maior pecado do disco, produzido por Pedro Baldanza, é a falta de uma cara própria. Tudo que você ouvir aqui parece trilha de novela, MPB frouxa ou rádio falso-sofisticada.

> Barbara Leite – Quem

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=kEUNXXSCEbY[/youtube]
É fácil reconhecer o molho da nova MPB neste segundo disco de Barbara Leite. Algo de Ana Carolina, Maria Gadu e Isabela Taviani paira sobre a mistura pop com baladas e solos de guitarra. A voz grave sofre na falta de criatividade e fica presa a uma região pálida. A regravação de Um girassol da cor do seu cabelo , uma das belezas do Clube da Esquina, ficaria melhor com mais voz. Talvez seja essa limitação (propriamente dita) vocal o principal empecilho para a música de Barbara Leite não decolar. Guitarrista mineira de 20 anos, ela até aposta na veia compositora apresentando nove faias de próprio punho (apenas uma com parceiro). Mas não mostrou, ainda, a personalidade para sua carreira.

> Giovanna Farias – Uyraplural

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=TfvPqotg15E[/youtube]
A paraibana Giovanna Farias herdou o sobrenome do pai, Vital Farias. Autor de tantas canções belíssimas registradas por estrelas como Elba Ramalho e Marília Barbosa, é ele quem assume a produção e boa parte das composições de Uyraplural. O disco balança entre o popular e o erudito. Esse último aspecto chama atenção para o estilo operístico da cantora. Para quem conhece a coleção Cantoria, que reuniu um time de violeiros, que inclui o próprio Vital Farias, pode se espantar com o respeito dado a pérolas da canção popular como Veja (Margarida) e Sete cantigas para voar. Ou ainda Tamba-tajá, faixa que deu nome a primeiro e essencial disco de Fafá de Belém.  Embora, Giovanna chegue a derrapar nos agudos, ela fez bonito em manter intacto seu sotaque.

> Projeto Vinagrete – Misturar é preciso

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=AtKNJBdRJpI[/youtube]
Formado em 2006 por Uribe Teófilo, Diego Rubio e Gui da Cuíca, o Projeto Vinagrete faz música para dançar. Ponto. Partindo daí, é possível conversar sobre o disco Misturar é preciso. O clima é de gafieira, baile e suingue. Com metais, percussão e a voz privilegiada de Uribe, o disco tenta reproduzir a energia do palco. Em alguns momentos, chega perto, como em Fevereiro. Das 15 faixas, apenas duas não são inéditas. Uma delas é Aqui é o país do futebol (Milton Nascimento/ Fernando Brant), imortalizada por Wilson Simonal e revisitada com respeito. A segunda é É de manhã (Caetano Veloso), em clima de samba clássico. Produzido por Pedro Baldanza, Misturar é preciso não chega a surpreender, mas cumpre bem o seu papel.