Entre Aspas

Em linhas tortas

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Céu nublado.  Sair às dez da manhã para ir no supermercado embaixo de chuva não é tão legal quanto parece. Primeiro: tem chuva e depois tem chuva de novo. Tomo o café com leite que fiz apressadamente,   na mão direita a xícara com o café, na esquerda o último cigarro que tenho. Pego o meu guarda chuva e saio em rumo às compras(comida).  Me acordei pensando que estava em Veneza, ou Monmartre, mas estava mesmo aqui, nessa cidadezinha tropical que de vez em quando chove e quando chove inunda tudo, as ruas, as casas e o meu coração…

A senhora manobra as sacolas das compras nas duas mãos,  o camelô grita insistentemente para as pessoas comprarem os seus dvd’s  e cd’s piratas. Vejo as quitandas na rua, tem morangos, bananas, mamãos, cajús, mangas, tudo sortido, vejo tudo que gosto menos o que ainda quero gostar.  O sinal pára, uma moto avança o sinal, ops, cuidado, ia sendo quase atropelado. Estou desatento hoje, procurando não sei o quê. Cadê esse supermercado que não alcanço? Ainda faltam mais quatro quadras pra chegar lá, cruzes, dó das minhas pernas.  Meu guarda-chuva é soprado pelo vento forte, vai desabar mais água lá de cima, desconfio. Cachorros e gatos desfilam pela avenida, uma avenida que tem de tudo, se parece mais com a Feira de Caruaru, mas não é, é aqui mesmo.

Em meio a todo mundo, à todas as frutas, gatos e cachorros, camelôs e sei lá o quê mais, não o vejo, não consigo encontrá-lo daqui. Nenhum sinal. Nenhum sinal daquele ar misterioso, daquelas mão possivelmente geladas, da barba de três dias por fazer, nada da presença, só sua ausência está ali. Onde está você nesse domingo mais ou menos? Está deitado na sua cama de colcha verde escutando Mozart? Ou é Guns Roses mesmo?  Está comendo laranja e escrevendo alguma resenha de um livro? O Diário de Anne Frank, não não, Morangos Mofados? Ah, já sei A Cidade Sitiada? Também não? Poxa, então não sei. Desisto de acertar.

Meus devaneios crescem a cada medida que me aproximo do  supermercado. Faltam duas quadras, tenho esperança de encontrar você. Aliás, é somente na última quadra que quase sempre, encontro você, quase sempre. Espero que hoje, que agora, seja esse quase sempre.  Mas não, não foi dessa vez. Chego no então supermercado, entro meio absorto, as pessoas olham pra mim como se eu tivesse feito algo de muito grave, como se tivesse matado alguém. Na verdade matei, matei desde o começo do ano, o meu amor próprio, coitadinho, foi de uma tacada só, mas disso, ninguém sabia, só eu e o finado.  Pego a cesta e vou atrás dos produtos que vim comprar: biscoito salgado de alho, suco de uva, sorvete de creme, arroz e macarrão integral e um bom ketchup, para misturar na pipoca de microondas que pretendo fazer mais tarde, se eu chegar em casa…

É, ultimamente estou assim, nada de planos, nada de futuro, só o presente, por isso nem sei se chego em casa. Meus amigos dizem que sou muito pessimista, paranóico, louco, adoidado, mas não sou. Antes fazia muitos planos, isso é verdade, hoje, je ne sais pas o que é isso. Je sais, você sabe.  A qualquer hora posso tropeçar nesse piso úmido do supermercado e cair, bater a cabeça na rodinha do carrinho da moça ao lado e morrer instantaneamente…. Mas acredito que não será assim. Não é o que acontece. Chega a minha vez de passar as compras no caixa, pago, pego a nota fiscal, dou muito obrigado a moça e vou embora.

Se tiver muita sorte ainda posso te encontrar na volta. Será? Será se vai rolar um encontro casual ou foi um desencontro proposital desse destino que teima em andar em linhas tortas? Pois é, nem sinal de destino, estou à deriva, nem destino tenho mais, é foda.  Na volta pra casa, vejo meninas de mais ou menos cinco anos brincando de amarelinha na chuva, que felicidade, por um momento essa brincadeira me trouxe de volta lembranças infantis, ah que  saudade dos tempos, saudades…

Te vi. Você passou pelas meninas brincando, você saiu da casa em frente ao supermercado. Será sua casa? A casa de sua mãe, seu namorado? Dá reforço escolar? Ou vinha da casa de um amigo? Não sei e nem teria a coragem e a pretensão de te perguntar. Hoje, realmente o destino está meio trôpego. Sempre que te vejo, nem que seja de relance, é na ida e agora estoy te viendo na vuelta,  não está me olhando no rosto, estou vendo tua nuca, estou atrás de ti,  uns dez passos de diferença. Queria que você desse meia volta e virasse para mim, me chamasse para subir pra algum lugar, me levar pra onde tu fosses, mas não, isso não vai acontecer, tá escrito, eu sou o diretor.

Teu guarda chuva vermelho é bonito. Combina com tua  calça bege e teus chinelos marrons. Essa camisa longa cinza está a cor do céu de hoje. Tua nuca com fios de cabelos castanhos correm e embelezam o dia, teus passos, trêmulos iguais aos meus, me encantam. Vem cá, tô aqui, olha pra mim, estou atrás de ti. Olha, mira, veja! Nada acontece.

Estou te seguindo? Não, estou indo pra casa, mas porque você está indo na mesma direção, porque não volta, esbarra em mim, me derruba, pede desculpas,  me convence de me levar pra tua casa pra colocar o papo em dia, pra escutar Gal Costa ou Manu Chao, vem eu aceito, não precisa ter vergonha.  Chega! Chega de loucuras, de possíveis diálogos, de pensamentos torpes, bestas, que não levam a nada. Esto chegando em casa, faltam duas ruas, é aí que o destino, o bendito acontece.

Você vira, me olha e abre um sorriso lindo, o mais lindo que eu já vi, me chama,  grita o meu nome.  Olho com olho, pupila com pupila, desejo com desejo. Vou atravessar a rua, mas… Lá vem um carro, um veículo vermelho da cor da tua blusa, com fumê em todas as partes… Batida. Eu caio. As compras rolam pelo chão. O suco abre, se mistura com o sorvete, eu estendido no chão, as pessoas se aproximando, você ficando cada vez mais longe, atônito. inacreditável… É você mesmo, está vindo me ver, não tenho como responder, é chegado a hora, não era pra eu ter ido hoje ao supermercado, aliás, hoje não é quinta-feira, é domingo, do pé de cachimbo,  tudo foi escrito, em linhas totalmente  tortas, paralelas. Eu fecho o olho, agora escuto a tua voz, que liga desesperadamente pro um nove dois, socorro, mas já não é mais preciso.

Te lanço o último olhar, um olhar eterno, close nos seus olhos castanhos claros, agora plano geral: eu caído na rua,as pessoas ao redor, você com um celular na mão e do meu lado, em meio ao trânsito caótico da avenida, não há mais nada que se possa fazer, tchau, vou embora, tá na hora, o destino escreveu o nosso encontro, o encontro que eu tanto esperava,  escreveu aos garranchos, em linhas tortas… é o fim…

 

 

 

Texto: Eduardo Sousa || Imagem: Internet

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