Leituras da Bel

A autora mais citada (e confundida) da internet

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Redes sociais não poupam citações e memes de Clarice Lispector. Mesmo assim, podem ser um atrativo para conquistar para novos leitores. Na próxima sexta-feira, 9 de dezembro, são marcados 39 anos da morte de Clarice. O Leituras da Bel publica uma série de matérias sobre a vida e a obra da autora

Junto das centenas de postagens utilizando citações de Clarice Lispector podem surgir dezenas de novos leitores. O encontro com as frases através das redes sociais funciona como porta de entrada para a obra da autora. Desde os tempos do extinto Orkut, a brasileira foi amada por internautas que garimpavam frases de romances, contos e crônicas. Agora, é no Twitter e no Facebook que mais figuram composições clariceanas – em comunidades e páginas. Mas, com tanta disseminação, surgiram as falsas postagens, atribuindo a Clarice a autoria de composições jamais pronunciadas pela escritora.


“É natural que com a internet aconteceu um grande salto para o sucesso, pois sua obra passou a ser divulgada com mais facilidade. Mas há que considerar também que a literatura de Clarice fala diretamente da e para a intimidade, registrando movimentos da alma difíceis de serem detectados e descritos. O seu sucesso tem a ver sobretudo com uma notável capacidade de apreender tais meandros da experiência interior de personagens. Há que considerar também que, se a rede, por um lado, divulga a literatura de Clarice, por outro faz trabalho contrário, na medida em que divulga textos de uma falsa Clarice, textos que ali aparecem como se fossem de Clarice mas que, na verdade, não são. E isso é péssimo”, pontua Nádia Batella Gotlib, uma das principais biógrafas da escritora, em entrevista ao O POVO, por email.

A estudiosa Teresa Monteiro lembra que a escritora era visitada através redes sociais antes do Twitter e do Facebook despontarem. “Logo quando a comunicação online ficou acessível no Brasil, houve um boom de Clarice Lispector. No Orkut existiam comunidades com mais de um milhão de leitores. E eu indagava: como uma escritora pode ter tantos seguidores em um país onde o acesso à literatura ainda é mínimo?”.

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Para a pesquisadora, parte dos fãs virtuais de Clarice Lispector é abastecida por frases esparsas. Mas a mobilização em torno da obra funciona como uma provocação para novos leitores.

“Já vi pessoas que não conhecem os livros, mas cultivam citações soltas. Entretanto, há uma parcela significativa que se interessa e procura outras fontes, descobrindo o universo da autora. O fenômeno literário também está vinculado a internet. Um leitor pode se interessar por uma citação e buscar o livro. A minha geração, mais velha, não teve acesso a esse canal”, explica Teresa Monteiro.

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