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Coluna Literatura e Mulher: Xinran e as As Boas Mulheres da China

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As Boas Mulheres da China

Por Alessandra Jarreta*

Conheci Xinran quando ainda estava no terceiro ano do colégio, graças ao empréstimo de uma amiga. O livro era As Boas Mulheres da China, coletânea de relatos escrita entre 1989 e 1997, quando a autora entrevistou mulheres de diferentes idades e classes sociais para tentar compreender a condição feminina na China moderna. A capa meio amarelada, com pequenos recortes de fotos antigas chamou-me a atenção, e como eu andava ansiosa por qualquer motivo para fugir das obrigações do pré-vestibular, resolvi começar a leitura naquele mesmo dia.

Você já chorou com um livro? Não me considero uma pessoa sensível agora e menos ainda na época, mas o livro me levou às lágrimas antes mesmo do prólogo chegar ao fim. Nas primeiras páginas, Xinran nos conta como arriscou a vida durante um assalto para salvar a sua única versão do livro que eu tinha em mãos, e como sentiu que não resgatava apenas anos de trabalho – salvava a memória daquelas mulheres.

Foi o primeiro livro que me fez avaliar o quão pequenos eram os meus problemas, e perceber que os problemas das mulheres, o medo da violência causada pelos homens e o sentimento de impotência é o mesmo do outro lado do mundo. O que era o meu sofrimento perto do das mulheres que viviam na Colina dos gritos, cujo útero caído pendia pelo meio das pernas dificultando o andar, usadas como moeda de troca, afastadas de suas famílias, sem direito a voz, a comida, a dignidade? E por que elas, entre todas as mulheres retratadas no livro, pareciam ser as mais felizes? Esses são questionamentos que me acompanham ainda hoje, dez anos depois da minha primeira leitura.

Conheça Xinran!

Li As Boas Mulheres da China por inteiro três vezes durante diferentes períodos da minha vida, e as três leituras foram igualmente chocantes e fortes. Tenho em minha casa uma edição menor do que a que minha amiga me emprestou, um pocket já com as folhas descolando, lembrança de empréstimos feitos a amigos, e de vez em quando paro para reler algumas histórias, como a da menina que tinha uma mosca como animal de estimação, ou o testemunho das corajosas mães que mantinham sozinhas um orfanato, sobreviventes do terremoto que levou seus filhos. O livro também trouxe a vontade de estudar e procurar compreender melhor a Revolução Cultural chinesa, e suas marcas deixadas até hoje.

Xinran. (Foto: divulgação)

Xinran é radialista, jornalista e escritora. Durante oito anos de sua carreira apresentou o programa de rádio Palavras da Brisa Noturna, onde teve acesso às historias de centenas de mulheres, que a ligavam e escreviam em busca de ajuda e conselhos. Muitas vezes censurada, Xinran precisou mudar-se com o filho para Londres para poder publicar sua coletânea de relatos. Em 2004, a autora fundou a The Mother’s Bridge of Love, uma ONG que busca ajudar as crianças chinesas adotadas a melhor compreender a cultura do ocidente e a facilitar a aproximação dessas crianças com suas novas famílias. Atualmente colabora com o jornal The Guardian e é professora na School of Oriental and African Studies da Universidade de Londres.

A autora tem outros seis livros publicados de ficção e não-ficcão, todos retratando a vida e sofrimento do povo chinês.

*Alessandra Jarreta é estudante de Letras da UFC, mediadora dos clubes de Leitura Nordestina, Leia Mulheres, Leituras Feministas, Clube do quadrinho e Lendo Clássicos. Escreve quinzenalmente para o Leituras da Bel sobre Mulher e Literatura.

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