Leituras da Bel

Leia “Uma caixa para Elisa”, texto da escritora Marília Lovatel

Uma caixa para Elisa
Marília Lovatel

Ilustração de Ezequiel

A primeira foi uma caixinha de música. A menina na ponta dos pés, as mãos prendendo o corpo na mesa de jantar, a linha dos olhos colada ao tampo de madeira, para ver a bailarina girando ao tom lá menor de Für Elise. O nome da composição de Beethoven gravado em uma plaqueta de metal dourado. Naquele instante, nasceu o interesse, o gosto, o hobby, o traço de personalidade que a distinguia. Os amigos se acostumaram a presenteá-la assim. Os motivos variavam. Os presentes não. Algumas eram eleitas por serem belas, outras porque eram diferentes, outras porque, simplesmente, ao ver uma caixa, era impossível não se lembrar dela. Fácil agradar Elisa. Difícil era encontrar lugar em sua casa para tantas caixas. De todos os tamanhos e tipos. De papel, de madeira, de vidro, de louça, de pedra-sabão, de ferro, de plástico, revestidas com tecido, entalhadas, pintadas, recortadas, trabalhadas com rendas, incrustadas de strass, falsas pérolas, esmeraldas, ametistas, topázios, rubis igualmente ilusórios, carregadas de detalhes, simples, sóbrias, requintadas, repetidas. Quando perguntada sobre o excesso, ela explicava, aprazia-lhe imaginar o que guardaria em cada uma, como iria preenchê-las. Mas, se ela o fizesse, de tão numerosas, poderiam mais esconder do que organizar os guardados. E ainda que listasse tudo em um catálogo, consumindo muito de seu tempo, precisaria antes decidir o que guardar em cada uma das caixas, para, em seguida, produzir um volume sem garantia de consulta, grosso e inútil como uma lista telefônica nos dias atuais. Não precisava que tivessem serventia. Elisa apreciava a comodidade do não pensar, saboreava o conforto das possibilidades da véspera de uma decisão adiada. Assim, as caixas permaneceram vazias, enquanto Elisa crescia. Até o dia em que, chegando da terapia, trouxe a revelação, os olhos acesos, a ideia queimando debaixo dos cabelos, a necessidade de superar o comportamento compulsivo, o transtorno diagnosticado que ela alimentava, pois também se presenteava. Não havia um retorno à sua casa sem uma nova aquisição, realizada na voltinha despretensiosa ao shopping, durante o intervalo de almoço, ou sob os apelos para que a funcionária a atendesse, mesmo àquela hora, com a loja já fechada, porque não resistira ao modelo exposto na vitrine. Há muito se tornara um problema sem que ela percebesse. As pessoas foram se cansando, se afastando, desaparecendo. Elisa precisava tratar o distúrbio psicológico. Recuperar sua vida, a família, os amigos perdidos para as caixas. Fique apenas com aquelas que conseguir preencher, o conselho, a ordem, o ultimato. Prometera que era capaz de vencer o desafio de doar todas as caixas inúteis. Começou organizando as poucas joias herdadas da mãe e da avó que escaparam das negociações, das trocas por caixas raras de marfim ou de prata. Depois, distribuiu as bijuterias, as maquiagens, os lenços, os botões, as agulhas, os alfinetes e tubos de linha, guardou os sabonetes, os sais de banho, as velas, os enfeites de Natal, as máscaras e os adereços de Carnaval, os lápis, os pincéis, os intactos potes de tinta comprados na tentativa de distrair a mente com algo novo, pedras coloridas, marcadores de livros, remédios, chocolates, sachês de chá, miniaturas, chaves velhas e chaveiros avulsos, moleskines, vidros de esmaltes, CDs, ferramentas, búzios, rolhas, broches, botons, álbuns, cartões manuscritos com mensagens carinhosas e suas pontas de durex despregadas, com resquícios do papel das embalagens de nenhuma surpresa para a felicidade certa, fitas de cetim, relógios, lingerie, ímãs de geladeira, tampinhas, óculos escuros, cinzeiros — ela que não fumava —, cintos, gravatas (gravatas!). A esta altura já trapaceava, comprando coisas de que não precisava, que jamais usaria, desde que coubessem em uma caixa. Cuecas, piões, abotoaduras, revistinhas com músicas cifradas, palhetas para o violão que nunca tocou. Fez estoque de cotonetes, grampeadores, serras de unha, cera para depilação, absorventes íntimos, filtro para coar café, porque, nunca se sabe, podem faltar no comércio. Contudo, mesmo no auge do transe de encontrar com o que rechear sua preciosa coleção, manteve-se fiel ao critério, ao princípio básico que rege aquilo que é ou não possível guardar em caixas. Ou seja, itens miúdos e pertencentes a um mesmo gênero, espécie, natureza. Em busca de uma bijuteria, procura-se na caixa das bijuterias. Se a urgência é por um remédio, o procedimento é o mesmo de recorrer à caixa correspondente. Assim acontece nos mais distintos lares. E, quando não havia mais conteúdo para tanto continente, guardou caixas dentro de caixas. Até o dia inevitável da constatação: preenchera nem metade do que precisava para honrar o compromisso. Derrotada, fechou-se em hermética tristeza. Dentro de sua casa. Dentro dela mesma. Definhou. Sufocou em uma vida sem tampa para abrir. Sem laço, sem ornamentos. Sentiu no peito o vazio de todas as caixas. Nada restabeleceu o seu ânimo. Até a ideia escaldante esfriar sob o cabelo, permitindo o pensamento fresco que lhe devolveu a alegria e a fez sorrir. Abriria mão de bem mais do que uma parte. Estava pronta para uma decisão inteira, embalada para presente, ao som de acordes em tom lá menor. Que lhe restituísse a leveza da bailarina. A sensação da primeira caixa. Quando a vida era uma incógnita suave. Aquela caixa musical e lúdica seria também a primeira a ser doada. E ela sabia exatamente quem a receberia como um pequeno tesouro. Quem, desde a infância, a desejara e, às escondidas, punha a bailarina a rodopiar. A expressão blasée no porta-retratos não disfarçava a aprovação do pai. Trouxe o presente para a filha no dia em que fora escolhido o funcionário do ano. Elisa até enxergou no reflexo do vidro emoldurado um princípio de sorriso mudando o rosto indiferente.  Um único ajuste era necessário. Nada que uma serrinha de metal não resolvesse. Assim, a última letra da plaqueta dourada foi raspada. Für Elis. Seria o seu presente para Elis, a irmã mais nova. No momento certo, a caçula entenderia aquela intervenção e o seu significado. Depois, usou a mesma serrinha pontiaguda para mostrar que era capaz de surpreender o terapeuta, escolhendo uma, uma somente a preencher, que substituísse todas as outras, que trouxesse de volta a família, os amigos, todos juntos, ao seu redor, os olhares a buscar os pulsos dilacerados, escondidos sob as flores tristes, as lágrimas a lamentar a derradeira caixa, em que coube tudo que a distinguia, e que era perfeitamente adequada, na justa medida da necessidade de Elisa.

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Marília Lovatel
Marília Lovatel cursou letras na Uece e é mestre em literatura pela UFC. É professora da Pós-Graduação em Escrita Literária no Centro Universitário Farias Brito. No intervalo de 6 anos publicou 10 livros infanto-juvenis, títulos apresentados por Rachel de Queiroz, Ignácio de Loyola Brandão, Ana Miranda, Antônio Torres e Socorro Acioli. Em 2019, lançou um livro de poemas e aforismos em parceria com Marcelo Peloggio. Duas vezes integrou o Catálogo de Bolonha e foi finalista do Prêmio Jabuti 2017.

Ezequiel
Ezequiel foi criado por uma família matriarcal. No seio de mulheres fortes e independentes se viu incentivado para diferentes linguagens artísticas. Se entende como desenhista desde 2015, quando ilustrou o livro Cuidado! É frágil? da poeta Tânia Castro (sua mãe). Cursa o ensino médio e, aos 16 anos, está mais disposto do que nunca a seguir como artista.

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