Leituras da Bel

Leia “Um menino, um caderno”, texto da escritora cearense Zélia Sales

Um menino, um caderno

Por Zélia Sales*

Quando morávamos no São João, eu não ia à escola, porque era ainda muito pequena. Só minha irmã mais velha ia, devia ter uns nove anos. Não era uma escola convencional, era a casa da professora, em cuja sala havia uma grande mesa, onde ficavam todos os alunos e alunas, de idades e níveis diferentes, todo mundo junto.

Ela não gostava de estudar. Talvez porque as aulas fossem no período da tarde, quando ela já estava cansada dos serviços lá de casa. Trabalhava feito um trator ajudando no preparo da comida, na limpeza da casa, nos cuidados com os irmãos menores. E ainda tomava conta da cabra.

Ilustração: Jéssica Gabrielle Lima

Minha irmã saía quebrada de casa, o sol tinindo, a estrada de poeira, cadê o ânimo pra estudar? O feijão do almoço no esforço da digestão, a tarde inteira amassando a bunda em um banco duro. Depois de um certo tempo, ela começou a voltar cedo pra casa, minha mãe estranhava: “Já!?” Todo dia alegava um motivo diferente.

Então revelou-se o mistério, pela boca de um senhor que tinha um roçado extremado com o caminho da escola. Ali por perto, no meio dos arbustos, minha irmã ficava escorada à pouca sombra de uma grande pedra. Alguém que passasse na estrada não poderia vê-la. Era muito estranho aquela menina toda tarde, debaixo daquele sol, a pedra pegando fogo… Ela esclareceu, a voz embargada pelo medo da surra: “No começo eu ficava lá na pedra a tarde todinha. Quando eu via os alunos voltando pra casa, eu acompanhava eles. Depois fui cansando de esperar e vinha me embora…” E completou enfadada: “ Ah!”

E por quê? Porque mal ela botava o pé na sala de aula, a professora lhe colocava no colo a sua nenê de quase um ano, gorda como um peba, “Segure aqui, depois você faz sua cópia, viu?” Sempre havia uma aluna varrendo a casa, enxugando os pratos… A mulher tinha um monte de filhos e filhas que poderiam fazer essas tarefas, mas era sobre alguns alunos que caía a responsabilidade. Sobrava pouco tempo para os estudos. E ainda havia a maldita palmatória caso não se fizesse a lição, “Abra a mão! Abra!”

Havia alguns que não se sujeitavam, mas com meu primo não foi diferente. Era um meninão magrela, acostumado a ser subserviente. Em casa, começava o dia carregando água para encher os potes, depois ia ajudar o pai no roçado, ou ia lachar lenha, alguma coisa assim. Chegava na escola estropiado. E qual era a primeira lição? Mal ele entrava, a professora vinha com as duas latas, o pau: “Aluisinho, meu filho, tome, vá ligeiro. Depois que você encher os potes, eu tomo sua lição, viu?” E o filho dela, um galalau, solto no meio do terreiro, com uma baladeira, fazendo mira nos passarinhos.

Muitos anos depois, em um encontro com a família, lembraram-se dessa história, todo mundo às gargalhadas, porque o tempo faz cômicas todas as tragédias. Minha irmã, meu primo e outras crianças não sabiam dizer não, aliás as crianças de modo geral não eram ensinadas a contestar, a fazer valer seus direitos, nem sei se tinham direitos. Lá em casa, a obediência era um valor indiscutível. Levei muita porrada porque ousava abrir a boca.

A professora também cortava um dobrado. Bem ou mal, ela mantinha a escola aberta, a única que havia na serra. E isso, anos a fio. Considerando que ela tinha sido professora da minha mãe, talvez fosse ainda uma mocinha quando começou a lecionar. No começo da carreira o pai, e mais tarde o marido, reclamando da casa cheia de culumins preguiçosos, catinguentos, desaforados. No final de cada mês, descia a serra a pé, vencia as léguas no sol e na poeira; ou debaixo de chuva, atolando-se no barro, para receber o mísero salário que a prefeitura pagava. Tudo isso para um catarrento aprender a escrever e registrar no caderno seboso, com a letra tosca: professora fela da puta.

Às vezes penso em pegar esse menino e puxar-lhe as orelhas, dar-lhe uns cascudos, meter-lhe a palmatória; às vezes penso em fazer-lhe um carinho na cabeça, dar-lhe um tapinha no ombro, pôr uma estrelinha em seu caderno, pregá-lo na parede, nos muros, fazer dele um estandarte, uma bandeira. Esse menino confunde meus conceitos.

***

Zélia Sales
Já fez algumas conquistas na vida e diz que uma das mais ousadas é escrever, publicar, chegar ao leitor, que é sua maior motivação. É formada em Letras e atua na formação de leitores em escolas públicas. Nas voltas que o mundo deu, virou também dona de casa, esposa, mãe, escritora. Enquanto escreve, corrige redações, refoga um frango, procura os filhos pelo Whatsapp. Acredita que escrever é assumir uma conduta subversiva. Ela integra o livro Relicário – produção comemorativa pelos 30 anos do caderno Vida&Arte.

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