Plínio Bortolotti

A quem os rolezinhos metem medo?

Meu artigo publicado na edição de 23/1/2014 do O POVO.

A quem os rolezinhos metem medo?
Plínio Bortolotti

Logo no início dos chamados “rolezinhos” escrevi no Twitter: “Todo apartheid está condenado à lata de lixo da história”. Ainda havia lido pouco sobre o assunto – minha principal forma de conhecimento – mas instintivamente vi no fenômeno uma das marcantes características da sociedade brasileira, a apartação social, da qual é vítima, principalmente, a população negra e, dentro desta, os jovens.

A primeira vez que estive em Salvador, ainda bem jovem, me deslocava de ônibus pela capital baiana, meio no qual os negros são a imensa maioria. Ao entrar em um shopping (o único da época), observei o inverso: raríssimos negros, mesmo entre os vendedores. Era fácil reparar algo errado naqueles dois mundos completamente diferentes convivendo no mesmo espaço. (Observem, no carnaval de Salvador, a cor da pele dos que seguram as cordas e a dos que dançam dentro do cercado.)

Falando sobre os rolezinhos, o meu colega Fábio Campos escreveu que os shoppings são “(mais do que nunca) espaços democráticos” (aqui). É fato, não existe nenhuma placa em shoppings dizendo: “É proibida a entrada de pobres e pretos”. Bom, meu amigo, olhe à sua volta. Determinadas coisas não precisam estar inscritas em lei para valer, na real, desde que cada um saiba o seu lugar, e fique nele sem reclamar, se estiver no pé da pirâmide social. (Sei que os rolezeiros são frequentadores regulares de shoppings periféricos, mas essa é outra vertente do debate.)

O medo conservador, portanto, é ver o desmoronamento da velha ordem de “um lugar para cada coisa, cada coisa em seu lugar”, como dizia o marido “certinho” de Dona Flor, o farmacêutico Teodoro Madureira.

Se na superfície o rolezinho é “despolitizado”, pois meninos e meninas querem apenas consumir, beijar e namorar, o movimento nos força a lembrar a existência do “Brasil de baixo e do Brasil de cima”, como dizia o velho Patativa do Assaré.

(Mas, desconsole-se a esquerda e sossegue a direita: a revolução não está ali na esquina.)

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