Plínio Bortolotti

Futebol, na alegria e na tristeza

Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 22/6/2014 do O POVO.

Arte: Guabiras

Arte: Guabiras

Futebol, na alegria e na tristeza
Plínio Bortolotti

“Não passo de um mendigo do bom futebol. Ando pelo mundo de chapéu na mão, e nos estádios suplico: ‘Uma linda jogada pelo amor de Deus!’ Quando acontece o bom futebol, agradeço o milagre sem me importar com o clube ou o país que o oferece”.

É assim que o escritor uruguaio Eduardo Galeano inicia o seu Futebol ao sol e à sombra, livro que é uma homenagem ao esporte e seus heróis de todas as pátrias. Na obra, na verdade uma longa crônica, na qual se misturam realidade, lenda e imaginação, Galeano faz um relato emocionado de todas as Copas, a partir de 1934.

Antes de entrar no assunto propriamente dito, ele oferece definições muito próprias, e românticas, dos vários aspectos e dos personagens do futebol. O gol: “É o orgasmo do futebol”. O árbitro: “O árbitro é arbitrário por definição”. O ídolo: “E um belo dia a deusa dos ventos beija o pé do homem, o maltratado, o desprezado pé, e desse beijo nasce o ídolo do futebol”. A bola: “No Brasil, ninguém duvida de que ela é mulher”.

Galeano vai buscar as origens mais remotas do jogo e as encontra na China, cinco mil anos atrás: “No futebol, como em quase tudo, os primeiros foram os chineses”. Porém, o futebol teria chegado ao Ocidente, às Ilhas Britânicas, “pelos pés dos legionários romanos”. O escritor vai encontrar citações sobre o futebol até em Shakepeare:

– Rodo para vós de tal maneira… Tomais-me por uma bola de futebol? Vós me chutais para lá e ele me chuta para cá. Se devo durar nesse serviço, deveis forrar-me de couro. (Comédia de erros)

E, em Rei Lear, o conde de Kent costumava insultar assim: “Tu, desprezível jogador de futebol”.

Por óbvio, Galeano detém-se na Copa de 1950, a tragédia que abalou o Brasil, provocada pelo time de seu país. Entanto, o escritor uruguaio não tripudia. Generosamente, destaca os craques brasileiros, inclusive o goleiro Barbosa, que tomou o fatídico gol de Ghiggia, que sacramentou a derrota do Brasil na final, por 2×1, em pleno Maracanã. A Jules Rimet foi para o Uruguai.

O gol foi de Ghiggia, mas todos os analistas são unânime em afirmar que o condutor da vitória foi o capitão do time, Obidulio Varela, que absteve-se de bater no peito, cantar vitória. Ao fim do jogo, cercado por jornalistas, atribuiu a derrota brasileira à “causalidade”, e evitou ser fotografado. Depois, passou a noite tomando cerveja com os jogadores brasileiros.

Se Ghiggia foi o carrasco uruguaio, Barbosa foi escolhido como o vilão brasileiro do jogo, o que alguns atribuem ao fato de ele ser negro. Em 1993, nas eliminatórios para o Mundial dos Estados Unidos, Barbosa foi visitar o selecionado brasileiro na concentração, porém foi impedido de entrar. Desabafou: “No Brasil, a pena maior para um crime é de 30 anos de cadeia. Há 43 anos pago por um crime que não cometi”.

Ghiggia, por sua vez, declarou anos depois:

– Apenas três pessoas, com um único gesto calaram o Maracanã com 200 mil pessoas: Frank Sinatra, o papa João Paulo Segundo e eu.

Iniciando os capítulos relativos a cada Copa, Galeano faz um ágil resumo da situação política do mundo. A partir da Copa de 1962 (a revolução cubana triunfara em 1959), ele introduz o seguinte parágrafo: “Fontes bem informadas de Miami anunciavam a iminente queda de Fidel Castro, que ia despencar em questão de horas”. Nos capítulos seguintes, ele repete ironicamente a frase, sem nenhuma alteração, até o Mundial de 2002, quando se encerra o livro.

Eduardo Galeano é um jornalista e escritor uruguaio, autor de mais de 40 livros, sendo o mais conhecido As veias abertas da América Latina, no qual narra a história do continente, criticando a exploração que os europeus, depois os americanos submeteram a região. O golpe militar no Uruguai (1973) levou-o à prisão e depois ao exílio na Argentina, de onde também foi obrigado a sair em 1976, quando o general Jorge Rafael Videla derruba o governo constitucional e assume o poder.

NOTAS

O capitão
O sentimento de empatia de Obidulio Varela em relação aos brasileiros derrotados é confirmado pelo jornalista Armando Nogueira. No livro A Copa que ninguém viu – E a que não queremos lembrar, ele relata um depoimento do capitão uruguaio, dizendo que, caso soubesse que iria amargurar tanto “um povo tão simpático”, não teria se esforçado para ganhar o Mundial de 1950.

A manchete
No mesmo livro, o jornalista Roberto Muylaert, na época trabalhando na Gazeta Esportiva (SP), conta que o editor mandou preparar antecipadamente vários títulos (na época era preciso produzi-los em clichê para a impressão), todos dando vitória ao Brasil, à exceção de um: “Em meio ao desespero geral o Brasil perdeu”. Muylaert disse que o editor quase apanhou na redação, mas guardou a manchete no fundo da gaveta, “e foi essa a que ele usou para imprimir o jornal”.

Maracanã
Foi também em A Copa que ninguém viu que Armando Nogueira, descreve como foi o fim do jogo no Maracanã na Copa de 1950: “Em menos de uma hora, o estádio parece um imenso cemitério. (…) O povo descendo a rampa, em silêncio, parecia um cortejo fúnebre. Parecia não – era mesmo. Tínhamos acabado de enterrar a soberba nacional”.

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