Plínio Bortolotti

Qual é o seu tipo: conservador, reacionário ou revolucionário?

Reprodução da coluna “Menu Político”, publicada no caderno “People”, edição de 16/11/2014 do O POVO.

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Plínio Bortolotti

Semana passada escrevi nesta coluna que tenho por hábito divulgar ideias com as quais não concordo, necessariamente. Hoje é a vez de comentar o livro As ideias conservadoras explicadas a revolucionários e reacionários, do jornalista e escritor português João Pereira Coutinho. A primeira coisa boa: ele é não um dos chamados “pit bulls”, que muitos confundem com conservadores, que proliferam na imprensa, destilando ódio e preconceitos. Coutinho tem prosa elegante e melíflua; costuma brandir argumentos e não um martelo (ou os dentes).

De saída Coutinho rejeita ver o conservador como sinônimo de reacionário. Para ele, trata-se de “caricatura” equiparar a ambos, apesar de reconhecer que existe uma linha de tradição reacionária no conservadorismo. O mais importante, porém, diz, é que o conservadorismo político luta por preservar aquilo que é importante no presente, enquanto o reacionário sonha com o retorno a um passado idealizado.

Quanto aos revolucionários, Coutinho considera que a “imperfeição humana” desautoriza projetos grandiosos e abstratos, “porque a complexidade dos fenômenos sociais não pode ser abarcada, muito menos radicalmente transformada rumo à perfeição, por matéria tão precária”. Mas, ressalta, a ideologia conservadora não nega a possibilidade de se melhorar as condições dadas, pois seria “historicamente obtuso”.

Para ele, o que define a teoria e a prática dos reacionários e dos revolucionários – e os torna iguais com sinal trocado – é o “repúdio” ao presente, cuja “fruição”, daquilo que passou no “teste do tempo”, é valorizada pelo conservadorismo político. Enfim, o conservador rejeita as utopias, sejam elas reacionárias ou revolucionárias.

Mas como se definiria a ideologia conservadora, na visão de Coutinho? Para ele, o conservadorismo é uma “ideologia posicional e reativa”. Posicional, porque rejeita uma atitude a priori, como fazem as ideologias reacionária e a revolucionária; o conservador age de acordo com a situação que se apresenta. Reativa, pois emerge quando os “valores do presente” estão em perigo, recolhendo-se nos tempos de calmaria (se é que os há).

Coutinho afirma que o conservadorismo também se distingue de outras “ideologias mais moderadas”, como o liberalismo clássico ou socialismo (que ele chama de “liberalismo progressista”), pois elas também se apresentam com “um ideário a cumprir, de forma transtemporal e transespacial”. Diferentemente, o conservadorismo político atua de acordo com a situação, “de maneira humilde e prudente”. Assim, se para o liberal a prioridade é a liberdade e para o socialista a igualdade, o conservador estabelecerá o primado de cada uma “consoante as circunstâncias”.

O escritor português também rebate a ideia corrente de que o conservador é imobilista. Ao contrário, para ele, o conservadorismo político “é indissolúvel de uma ideia de reforma”, pois a mudança é um “importante mecanismo de conservação” daquilo que se encontra em risco na sociedade. E vai em busca do maior exemplo histórico para justificar a sua tese: “Foi por terem recusado a reforma que os franceses se condenaram, e condenaram a Europa à revolução”.

Seria positivo se as ideias de Coutinho ajudassem a dar um rumo à “nova direita” brasileira, fazendo-a desistir do apelo reacionário à ditadura.

NOTAS

Todo mundo…
“Todos somos conservadores. Pelo menos em relação ao que estimamos. Família, amores, amigos. (…) Conservar e desfrutar são dois verbos caros aos homens que ainda estimam alguma coisa.”

…é…
“Existem pessoas que, apesar de uma disposição conservadora, não subscrevem, necessariamente, uma preferência política pelo conservadorismo.”

…e não é
“E o inverso também sucede: pessoas de posição mais radical nas suas personalíssimas condutas que, politicamente falando, subscrevem posições conservadoras.”

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