Plínio Bortolotti

Filme “Spotlight” mostra que o “velho” jornalismo está mais vivo do que nunca

Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 17/1/2015 do O POVO.

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Plínio Bortolotti

É de conhecimento geral o escândalo dos padres pedófilos, que abalou a Igreja Católica no mundo inteiro, expondo um problema antes restrito às sacristias. A generalização dos relatos de abuso sexual mostrou que não era o caso de “maças podres na cesta”, mas envolvia a alta hierarquia católica, pelo menos na cidade de Boston, Estados Unidos, onde começaram os relatos mais consistentes.

O que menos gente sabe é que o véu dos abusos foi levantado pelo jornal The Boston Globe, mais especificamente por sua equipe de repórteres investigativos, chamada “Spotlight” (holofotote), chefiada por editor que se manteve firme, mesmo sob intensa pressão da Igreja e de seu círculo de poderosos amigos.

As primeiras reportagens foram publicadas em 2002, quando a internet ainda engatinhava, mas já se ouviam as primeiras vozes a vaticinarem a morte da “velha mídia”. A existência da rede virtual, diziam (ainda dizem) os oráculos, tornaria todo mundo jornalista, já que “qualquer um” poderia produzir informação e divulgá-la para o mundo inteiro.

A história contada no filme Spotlight – Segredos revelados é a prova que o “velho” jornalismo está mais vivo do que nunca. Não se trata, por óbvio, simplesmente de uma defesa do jornal impresso. Mas do jornalismo e ponto. Independentemente da plataforma no qual ele se expressa.

Produzir “informação”, claro, “qualquer um” é capaz, como aquela comadre que dá conta da vida de toda a vizinhança. Mas estamos falando de jornalismo, que consolidou um método ao longo dos séculos, com o trabalho e o experimento de gerações e gerações de profissionais, que merece ser levado em conta por quem se dispõe a pôr uma história em letra de fôrma.

O filme, de modo didático – sem ser cansativo – mostra como é aplicado o método jornalístico: 1) a começar pela suspeita do editor de que pode haver uma boa história (no caso um editor recém-chegado à cidade, com o olhar mais “limpo”, permitindo-lhe ver o que para os outros era “normal”); 2) o trabalho de pesquisa; 3) a busca por documentos e a sua exaustiva verificação; 4) as seguidas e tensas conversas com centenas de fontes, cruzando declarações; 5) a procura pelas vítimas e a dificuldade de convenceram-nas a contar uma história traumática; 6) o dever de “ouvir o outro lado” (mas depois de organizado um volume de provas para dar ao jornalista a possibilidade de confrontar quem ele vai ouvir, para não ficar apenas o declaratório “fulano disse”, “sicrano negou”).

Como em uma redação real, não existe um herói em Spotlight, nem um “sherlock” para fazer deduções mirabolantes, nem reviravoltas espetaculares. É apenas e duro e sincronizado trabalho em equipe, em que chefe e repórteres põem a mão na massa, obsessivamente, demonstrando amor pelo ofício e a certeza de que desenvolvem uma atividade socialmente importante.

A série de reportagens contou com mais de 600 textos, colhendo depoimento de cerca de 1.500 vítimas (meninos e meninas), provando que havia mais de 70 padres pedófilos na paróquia, e levando ao afastamento de mais de 249 sacerdotes.

O trabalho dos repórteres mostrou como a hierarquia católica abafava os casos: oferecendo acordos extrajudiciais secretos em dinheiro ou pressionando as famílias, normalmente pobres. Uma das vítimas disse que um bispo chegou a ir à casa dela: para a família, disse ele, era como se o “próprio Deus” os tivesse visitado.

Qual blog, “jornalista cidadão” ou mídia “ninja” teria condições de fazer uma reportagem assim?

NOTAS

Crianças
Um dos personagens o filme cita um ditado africano: “Para educar uma criança é preciso uma aldeia inteira”, do seguinte modo: “Se é preciso uma aldeia criança para educar uma criança, é preciso uma aldeia inteira para abusar dela”.

Boston
A referência é à cidade de Boston, de formação católica, devido à sua origem irlandesa, que formou um círculo de proteção à igreja, custando um trabalho insano dos repórteres para rompê-lo.

Segredo de Justiça
Um dos personagens mais interessantes do filme é o obsessivo advogado das vítimas. Apesar do pessimismo, ele não desiste da luta. E fica-se sabendo que segredo de Justiça nos EUA coisa séria. O advogado tinha documentos incriminadores contra a Igreja, mas nunca os “vazou” para a imprensa, devido à proibição judicial.

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