Plínio Bortolotti

A lenda dos militares imunes à corrupção

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Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 29/10/2017 do O POVO.

A lenda dos militares imunes à corrupção

Um dos primeiros argumentos brandidos pelos defensores do golpe militar é que na caserna não haveria corrupção. Os militares, para essa turma, são uma espécie de casta diferente do Homo sapiens, pois estariam livres da corrupção, como se fossem portadores de um gene que repelisse naturalmente qualquer desvio moral ou ético. Ou, talvez, pensem que o cidadão quando se alista nas Forças Armadas, recebe uma vacina livrando-o desse mal, que atinge a todos os agrupamentos humanos.

É claro que qualquer pessoa com mais de dois neurônios sabe que a coisa não é assim, mas vá tentar convencer os bolsominions (adoradores do deputado Jair Bolsonaro) para ver o que acontece.

Reportagem publicada no portal Uol revela que o Ministério Público encontrou desvio de R$ 191 milhões nos quartéis. Estão envolvidos nos atos ilícitos desde praças até oficiais de alta patente; casos que vão de “cobrança de propina em contratos a roubo de peças de tanques militares”.

Para chegar a esse valor, foi feito levantamento com base em 60 denúncias do Ministério Público Militar (MPM). Os crimes são os mesmos nos quais se envolvem políticos e empresários: fraudes a licitações (em hospitais militares), corrupção passiva, ativa, peculato e estelionato.

Há até casos exóticos, como de um coronel reformado que, “às vésperas de sua morte”, divorciou-se da mulher para casar com a própria nora, “apenas para garantir que a sua pensão fosse paga por mais tempo”. Ou a curiosa façanha amadora de um soldado e um cabo, que furtaram peças de um tanque de guerra, sem se preocuparem com as câmeras de segurança do quartel. O material, pesando 320 quilos, foi vendido em um ferro-velho por pouco mais de R$ 900.

O procurador-geral da Justiça Militar, Jaime Cássio de Miranda, diz que já foram encontradas inclusive “organizações criminosas formadas por militantes atuando em unidades do Exército, da Marinha de da Aeronáutica”, mas ressalta não haver nenhum indício, “até agora” de que isso ocorra “de forma sistemática” nas Forças Armadas.

O Ministério da Defesa, que tem mais juízo que as vivandeiras, reconheceu o problema, afirmando que “nenhuma organização ou país está imune à corrupção”. Acrescentou que “na formação e educação do militar, fatos desabonadores da ética e da moral são repudiados e devidamente punidos”. Vejam, os militares têm formação rígida, hierarquia inflexível e, mesmo assim, acontecem casos de corrupção.

Por óbvio, também houve casos de corrupção no período da ditadura militar (1964-1985). Em entrevista ao portal BBC Brasil, o historiador Pedro Henrique Campos disse que grandes empreiteiras beneficiaram-se de “relações especiais” com o Estado, desde o seu surgimento, entre as décadas de 1930 e 1950. Porém, diz ele, o pagamento de propinas consolidou-se no período da ditadura. Campos pesquisou a história dessas empresas e sua relação com a ditadura em sua tese de doutorado na Universidade Federal Fluminense (UFF), origem do livro “Estranhas catedrais”.

É humano, é bíblico: “O ímpio aceita o suborno em segredo para perverter as veredas da justiça” (Provérbios 17:23). Por isso, a corrupção não se combate com um “homem forte” ou com um grupo de eleitos, hipoteticamente acima da realidade mundana.

Pelo contrário, para confrontar ilegalidades, quanto mais democracia, mais transparência, melhor: o exemplo de países nos quais a corrupção é reduzida estão aí para análise.

NOTAS

CONDENADOS
Entre 2010 e 2017, foram 132 militares condenados por corrupção ativa, passiva e peculato, representando 0,04% do efetivo – cerca de 300 mil integrantes das Forças Armada. Esses representam Outros 299 militares aguardam julgamento.

MAIS UM
Nesta semana foi preso, pela Polícia Civil, o sargento do Exército Carlos Alberto de Almeida, 46 anos. Segundo o delegado que comandou a operação, Almeida era um dos maiores armeiros do tráfico de drogas: limpava, consertava e customizava armas para bandidos – e comandava uma quadrilha. Armas e munição eram escondidas na casa dele, na vila militar.

CRÉDITO
Uol: Corrupção nos quartéis, Conheça dez histórias de corrupção durante a ditadura militar;  BBC: Pagamento de propinas por empreiteiras se consolidou durante ditadura, diz historiador.

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