Plínio Bortolotti

Combustíveis: tempo quente e café frio

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Uma velha anedota política adverte que se pode perceber a proximidade do fim do mandato de um presidente quando o garçom do Palácio do Planalto começa a servir-lhe café frio. Isso pode acontecer pelo término natural do período que lhe toca cumprir — sem possibilidade de reeleição — ou quando a sua companhia torna-se tóxica, devido à impopularidade, fazendo o dito cujo perder o poder de mando. O presidente Michel Temer, que já reunia todas essas condições para receber a sua xícara gelada, agrega mais um motivo para abalar a sua credibilidade, ao nível de rodapé: a greve dos caminhoneiros.

Temer, que se diz adepto do parlamentarismo, tentou experimentá-lo em seu governo, quando tinha as duas Casas – a Câmara e o Senado – à sua disposição, seja para aprovar leis impopulares (como a reforma trabalhista) ou para livrá-lo de processos no Supremo Tribunal Federal (STF), como ocorreu por duas vezes. Agora, seus antigos escudeiros, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) e o presidente do Senado, Eunício Oliveira (MDB-CE) estão na cabeça da lista dos que começam a abandonar o barco.

Maia afirma que a greve dos caminhoneiros acontece porque o governo “errou” em sua política de preços de combustíveis. Ele não diz, porém, quais seriam esses erros; também não se conhece nenhuma crítica de Maia ao reajuste automático, antes de a bomba do preços estourar.

Eunício, um “golpista” acolhido pelo PT, volta-se agora contra Temer, seu antigo aliado na trama do impeachment de Dilma Rousseff. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, ele bate com dureza no presidente, confrontando-o por querer impor a candidatura de Meirelles ao partido.

O senador mostra-se ainda revoltado com disparada do preço dos combustíveis. Quando perguntado sobre o assunto respondeu: “Entre os ‘Parentes’ (referência ao nome do presidente da Petrobras, Pedro Parente) e os consumidores, eu vou ficar com os consumidores”. Resta saber porque ele não ficou ao lado dos “consumidores” nas reformas trabalhista e da Previdência.

O fato é que, definitivamente, nem Eunício e nem Rodrigo Maia, estão a fim de tomar café frio na companhia de Temer.

 

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