Plínio Bortolotti

Mourão, o queridinho – de jornalistas, inclusive

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A verdadeira paúra que o presidente Jair Bolsonaro tem de enfrentar cara a cara jornalistas, e o fato de ele não conseguir encarrilhar – nem mesmo em ambiente controlado – coerentemente uma frase atrás da outra, transformou o vice, Hamilton Mourão, em fonte preferencial dos meios da comunicação sobre os assuntos da governança. O presidente é capitão, o vice, general; ambos do Exército.

Indisciplinado e ríspido, quando na ativa das Forças Armadas, Mourão transformou-se em um camarada jeitoso e afável no papel de vice-presidente, tornando-se, rapidamente, o queridinho de alguns jornalistas. Muitos veem nele uma espécie de antítese do presidente: um sujeito educado e preparado para exercer o ofício de dirigir o País, com propostas mais “moderadas”. (Ressalve-se que, ao lado de Bolsonaro, qualquer brucutu ganha feições principescas.)

Mas, a rigor, do ponto de vista do núcleo duro do programa, nada distingue um do outro: a diferença é que Mourão ganhou o verniz que falta a Bolsonaro; tem mais capacidade de aprender, apresenta-se como negociador, e tem boa percepção da conjuntura política, incluindo o cálculo dos benefícios que teria se tratasse bem a imprensa profissional, desprezada por Bolsonaro.

Mas, como se deu a transformação do rude general?

MEDIA TRAINING
Reportagem da agência de notícias Pública mostra como Mourão submeteu-se a um intenso processo de media training para abandonar “os modos rudes da caserna para conquistar a opinião pública” e tornar-se o “mozão” dos jornalistas. Media training, como revela o nome, é um treinamento para aprender como relacionar-se com jornalistas e lidar com os meios de comunicação. Como se vê, por vezes sai tão bom que os próprios jornalistas apreciam a forma, secundarizando o conteúdo.

É certo que Mourão (com o apoio dos generais instalados no Palácio do Planalto) cumpre o papel de refrear as iniciativas mais perigosas e estrambóticas de Bolsonaro, como é o caso do ataque que fez à China; a promessa de mudar a embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém e do abismo que o presidente queria atirar o Brasil, no caso da Venezuela, para citar algumas. Mas é preciso um pouco mais de cuidado antes vê-lo como o “salvador da pátria”, como um amante incondicional da democracia, ou um militar que, de repente, resolveu abandonar seu passado truculento para tornar-se um senhorzinho simpático e sensato. (Se isso vai resultar em um atrito mais forte com o presidente ou ao protagonismo cada vez maior de Mourão, transformando Bolsonaro em personagem secundário, ainda está em aberto. Comento sobre isso neste texto, mais abaixo.)

O PASSADO CONDENA
Mourão, ainda na ativa, era um general indisciplinado, useiro e vezeiro em fazer críticas aos governos petistas, mesmo sabendo que participar da política é vedado aos integrantes das Forças Armadas, prática permitida somente quando passam para a reserva. Continuou na mesma toada no governo Temer, falando, inclusive, em intervenção militar. Pela ordem:

Outubro/2015. Mourão é exonerado do Comando Militar Sul, transferido para um cargo burocrático na Secretaria de Finanças do Exército. Foi punido por críticas a Dilma Rousseff (na época presidente da República e, portanto, comandante das Forças Armadas), além de ter permitido, em quartel sob sua responsabilidade, homenagem ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos mais bárbaros torturadores da ditadura militar.

Dezembro/2017. Depois de se manifestar politicamente por duas vezes, em três meses, Mourão é punido novamente com mais um afastamento de função. Em setembro (2017), o general havia aventado a possibilidade de uma intervenção militar, caso o Judiciário não conseguisse resolver “o problema político”, nas vésperas do julgamento de um habeas corpus de Lula no Supremo Tribunal Federal (STF). Depois, em palestra no Clube Militar, em Brasília, reafirmou a possibilidade de atuação das Forças Armadas como suposto “elemento moderador e pacificador”, se o “caos” se instalasse no país. A definição de “caos”, logicamente, dependeria dos que as FFAA entendessem como tal. Também criticou o presidente à época, Michel Temer, seu superior hierárquico: “Nosso atual presidente vai aos trancos e barrancos, buscando se equilibrar, e, mediante o balcão de negócios, chegar ao final de seu mandato”.

Fevereiro/2018. Em sua despedida do Exército, Mourão chama de herói, o bandido Carlos Alberto Brilhante Ustra e elogia o então candidato a presidente da República, Jair Bolsonaro.

Setembro/2019. Já candidato a vice-presidente na chapa de extrema-direita de Jair Bolsonaro, Mourão em entrevista à GloboNews é questionado sobre a atividade do coronel Brilhante Ustra à frente do Doi-Codi, órgão de repressão da ditadura militar. Para defender as barbaridades cometidas por Ustra, ele responde que “heróis matam”, chamando os assassinatos de “excessos cometidos”, pois se travava uma “guerra”.

QUEM É O CORONEL BRILHANTE USTRA
O “herói” de Mourão e também de Bolsonaro era um homem desprezível, covarde e sem compaixão, porém perigoso. Ele integrava a Operação Bandeirante (Oban), um dos aparelhos de repressão da ditadura, onde, inclusive, foi torturado o cearense Frei Tito de Alencar. Sediado em São Paulo, o lugar era conhecido como “sucursal do inferno”.

Ustra também atuou no Doi-Codi. Segundo relatórios da Comissão Nacional da Verdade, durante a sua gestão foram mortas, oficialmente, 47 pessoas, mas há indícios, segundo o relatório, que o número pode passar de 500 mortes.

Amelinha Teles, presa política na década de 1970, testemunhou dizendo que Ustra levou seus dois filhos, de quatro e cinco anos, para vê-la torturada na cadeira do dragão, “nua, vomitada e urinada”. A família Teles levou Ustra à Justiça, onde ele foi condenado como torturador, porém o coronel morreu em 2015, sem ser punido pelos seus crimes.

MOURÃO X BOLSONARO
Retomemos, portanto, a relação limítrofe entre Bolsonaro e Mourão. Por enquanto, um precisa do outro. O presidente deve saber que, sem a tutela do grupo de generais o seu governo, em processo de rápido enfraquecimento, desmoronar-se-ia como um castelo de areia no deserto. Os militares, por sua vez, não podem avançar muito rápido com a infantaria. Por enquanto, os dois lados estão se valendo de sapadores para avaliar o terreno e desativar possíveis minas.

Mourão vem confrontando Bolsonaro em questões relevantes, como as citada acima, e outras secundária, como foi o caso da sociólogo Ilana Szabó ou ao receber a Central Única dos Trabalhadores (CUT), à revelia do conceito que Bolsonaro tem da entidade. Para as duas situações, ele deve ter se lembrado das aulas de media training.

No caso de Ilana, ela foi convidada a participar, pelo ministro da Justiça, Sérgio moro, como suplente, do Conselho Penitenciário, mas, na sequência foi afastada por intervenção direta do presidente, depois de queixas de seus aliados nas redes sociais. Mourão poderia ter ficado quieto, pois não é assunto de sua alçada e tratava-se de mera suplência de um órgão consultivo. Mesmo assim, o vice fez questão de dizer que o Brasil “perdeu” com a desindicação de Ilana.

Mas, ainda que suas ações ponham em xeque a autoridade de Bolsonaro, ele procura preservá-lo por meio de palavras, como declarar-se o “escudo e a espada” do presidente.

OS FILHOS
Outro complicador nessa situação é a influência dos filhos do presidente, especialmente Carlos Bolsonaro, o Zero Dois. Para ele, existe uma conspiração contra o pai, não apenas dos adversários e inimigos, mas também entre os aliados. Na demissão de Gustavo Bebianno da Secretaria-Geral da Presidência, Bolsonaro fez valer vontade de Carlos, contra praticamente todos os sues auxiliares, inclusive os generais.

A questão é que o destino do grupo militar e de Bolsonaro prende-se a um único fio, que pode romper-se a qualquer momento. Agora, é saber se Bolsonaro vai continuar aceitando o papel de coadjuvante no seu próprio governo, ou vai assumir o protagonismo, desautorizando Mourão, a quem ele, até agora, não ousou contrariar abertamente. Ou, se o grupo militar, de um jeito ou de outro, vai enquadrar Bolsonaro, afastar seus filhos e torná-lo um presidente decorativo, limitando-o a um cercadinho, com dedicação exclusiva ao Twitter. (Um aberto golpe de mão parece possibilidade muito remota, mas em se tratando de Brasil…)

BOLSONARO AVANÇA
Bolsonaro avançou duas casas ao resolver o assunto Gustavo Bebianno ao seu modo e ao dar um chega pra lá no supostamente intocável “superministro” Sérgio Moro. Soou como aviso para lembrar quem é o galo no terreiro. E ele pode ir em frente, pois já deu mostras de que age por impulso, sem medir as consequências. O presidente pode dobrar a aposta alta, escanteando os militares. Afinal, quem foi eleito presidente da República, com 55% dos votos, foi ele.

Se Bolsonaro realmente aloprar, muito provavelmente o governo será completamente tomado pela galera medonha, os discípulos do “filósofo” Olavo de Carvalho e, certamente, vai acabar no Irajá.

E, a propósito, este artigo foi para relembrar alguns trechos recentes da biografia do vice-presidente, pois tem muita gente pensando na eleição de 2022. Moro é um deles; Mourão é outro.
*

PS. De qualquer forma, por vezes tenho a impressão que Bolsonaro nunca quis governar. Ele é uma espécie de Coringa, do Batman, um agente do caos, que só se realizará quando estiver reinando sobre um monte de escombros: “Introduza um pouco de anarquia. Perturbe a ordem vigente e então tudo se torna um caos. Eu sou um agente do caos. E sabe, a chave do caos é o medo!”, do Coringa.

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