Plínio Bortolotti

Ministério Público e Moro continuam trabalhando em dobradinha

No artigo publicado hoje (20/6/2019) no O POVO, Dallagnol tem a resposta afirmei que, mesmo tendo o ministro da Justiça, Sérgio Moro, encerrado a sua conta no Telegram, os diálogos poderiam ser recuperados pelo telefone do procurador Deltan Dallagnol. Porém, em seguida ao depoimento do ex-juiz à Comissão do Senado, a “força-tarefa” de Curitiba, alegando ataque de hackers, disse, por meio de nota, ter deletado as mensagens do aplicativo de seus telefones.

No entanto, a nota dos procuradores é tão escorregadia quanto foi o depoimento de Moro aos senadores. Resumindo, ele insistiu na tese de não reconhecer a autenticidade dos diálogos, ao mesmo tempo em que afirmava nada haver de comprometedor nas mensagens. Ele se autoaplicava dupla vacina: punha em dúvida a autenticidade das revelações do site jornalístico The Intercept Brasil e, ao mesmo tempo, precavia-se de ser acusado de mentiroso em caso de comprovação dos diálogos mantidos com o procurador Deltan Dallagnol.

Em socorro de Moro – mostrando que a dobradinha continua ativa -, os solícitos procuradores da “força-tarefa” em Curitiba alegam não mais existir registro das mensagens trocadas entre eles. Segundo dizem, devido a ataque de hackers, em abril deste ano, eles “descontinuaram o uso e desativaram as contas do aplicativo ‘Telegram’ nos celulares, com a exclusão do histórico de mensagens tanto no celular como na nuvem”. Em seguida escrevem ter havido “reativação de contas para evitar sequestros de identidade virtual, o que não resgata o histórico de conversas excluídas”.

Observem que a nota escolheu termo diferente – “descontinuar” – daquele usado pelo Telegram para indicar que um perfil teve as mensagens totalmente destruídas, isto é, “apagar”. Além, disso, a nota afirma que os procuradores “reativaram as contas”, para “evitar sequestros de identidade visual (grifei)”. Mas, segundo informa o site do Telegram, o apagamento de uma conta é irreversível, não podendo ser reativada, como explica o item “O que acontece se eu apagar a minha conta?”:

“(…) todos os seus dados serão apagados do nosso sistema: todas as mensagens, grupos e contatos associados à sua conta serão apagados.(…) O término de uma conta do Telegram é irreversível. Se você se inscrever novamente, aparecerá como um novo usuário e não receberá seu histórico, contatos ou grupos de volta (grifei)”.

Os procuradores teriam, portanto, de responder às seguintes perguntas:

      1. Todos eles deletaram somente as mensagens em seus telefones ou apagaram a conta?
      2. Quando as mensagens foram deletadas? Em abril ou em datas posteriores?
      3. Se apagaram a conta como, como conseguiram reativá-las?
      4. Estão dispostos a entregar seus telefones para perícia, de modo a se verificar as informações contidas na nota emitida pela força-tarefa?

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    Acrescentadao às 14h56min, do dia 21/6/2019.

  1. O especialista em segurança da informação, Pablo Ximenes, faz algumas observações sobre o meu artigo e esclarece vários questões técnicas relativas ao assunto. Ele diz, inclusive, que mesmo que os procuradores de Curitiba tenham desativado suas contas, ainda é possível obter várias informações importantes, que podem, inclusive, atestar a veracidade dos diálogos divulgados pela portal jornalístico Intercept Brasil. Veja no blog de Pablo Ximenes.