Sincronicidade

Um curioso conto de Machado de Assis que fala da Providência

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– Ora, diga-me; não crê agora que haja uma Providência?

– Sempre acreditei.

– Não minta; se acreditasse não teria recorrido ao suicídio.

– Tem razão, coronel; dir-lhe-ei até: eu era um pouco de lodo, hoje sinto-me pérola.

– Comprendeu-me bem; eu não queria aludir à fortuna que veio encontrar aqui, mas a essa reforma de si mesmo, a essa renovação moral, que obteve com este ar e na contemplação daquela formosa Celestina.

Machado de Assis

[Assis, Machado de. Obra completa em quatro volumes: volume 2. Organização Aluizio Leite Neto, Ana Lima Cecilio, Heloisa Jahn. – 2ª. ed. – Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008. v. – (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira. O anjo Rafael. p. 941ss.]

Li, certa vez, em uma biografia de Machado de Assis que em seu leito morte indagaram-lhe se gostaria que chamassem um padre para ministrar-lhe a unção dos enfermos, ao que respondeu o Bruxo do Cosme Velho que não, pois fazê-lo seria de sua parte uma hipocrisia, uma vez que nunca fora um crente. Por esse motivo, deliciei-me com a leitura do conto O anjo Rafael, no qual é patenteada a intercessão da Providência divina no destino humano. Gostei tanto do conto que o li mais de uma vez.

O dr. Antero, personagem principal do conto, é um homem de trinta anos que planeja um suicídio. Depois de feitos todos os preparativos e ultimados os detalhes, deixa uma carta de despedida que deseja seja publicada no Jornal do Commercio e senta-se em uma poltrona tendo em mãos uma pistola, segundo ele “a chave” que lhe “vai abrir a porta deste cárcere”, a vida. No momento em que almejava dar cabo da própria existência disparando um tiro da pistola, é interrompido ao ouvir “três pancadinhas à porta”. Ao abri-la, se depara com uma figura desconhecida que lhe traz uma mensagem, uma carta propondo-lhe um negócio. A partir deste momento, o dr. Antero se vê envolto numa situação em que tudo sabe a mistério e suspense.

O título do conto alude à história bíblica relatada no Livro de Tobias, sobre a qual já escrevi certa vez neste blog. Nesse caso, uma figura misteriosa é providencialmente enviada à terra para socorrer Tobias num momento de aflição. A figura, disfarçada de homem, ao final se revelará ser, na verdade, o anjo Rafael. Da mesma forma, na criação machadiana o homem desconhecido encarregado da missão de entregar a carta ao dr. Antero aparece como uma espécie de anjo disfarçado. E assim como o anjo Rafael, que conduziu Tobias até uma cidade desconhecida, também caberá ao mensageiro conduzir o dr. Antero à propriedade de seu amo, um lugar obscuro e desconhecido para o jovem médico. O fato de ser um mensageiro também alude ao arquétipo angélico, pois, como se sabe, é essa a prerrogativa primordial dos anjos.

Quanto ao aspecto providencial explicitado no conto, este fica patenteado na coincidência exata entre o momento em que era iminente o disparo da pistola pelo dr. Antero e aquele da cheagada do mensageiro com a carta, quando as três batidinhas na porta são ouvidas. No final, ao expressar sua gratidão à misteriosa figura que lhe salvara a vida, diz o dr. Antero: “- Adeus, meu amigo; (…) nunca esquecerei o que fez por mim”, ao que retruca o outro: “Eu não fiz nada; ajudei a boa sorte” (p. 970).

Essa é uma das vantagens da arte: para expressar uma situação em que Deus se manifesta de forma disfarçada (“a boa sorte”), não foi preciso ao autor afirmar uma crença. Sem precisar abrir mão de sua condição de ateu ou agnóstico lhe foi facultado escrever um texto que poderia perfeitamente ter sido escrito pelo mais pio e convicto crente.