Cinema às 8

“Snowden: Herói ou Traidor” – Nacionalismo e escrúpulos

Snowden, o hacker delator

Snowden, o hacker delator

O limiar entre o fato de domínio público e a dramatização artística é o maior dilema de filmes baseados em fatos reais. Se, por um lado, a ficção pode pedir uma curva mais acentuada de ação, a fidelidade ao ocorrido é cobrança constante. “Snowden: Herói ou Traidor”, de Oliver Stone, portanto, lida com uma das questões mais delicadas dos últimos anos ao esmiuçar um dos casos mais amplamente explorados pela mídia nos últimos 20 anos. E faz isso de forma brilhante e (quase sempre) equilibrada.

O subtítulo nacional “herói ou traidor”, em si já expõe a polarização que o delator da Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA) ancora. Em 2013, o analista de sistemas roubou e vazou dados sigilosos, com auxílio do jornalista Glenn Greenwald e da documentarista Laura Poitras. Tais informações haviam sido colhidos de forma ilegal e provavam que a NSA (e o governo norte-americano por extensão) monitoravam as atividades dos milhões de cidadãos do próprio País. Isso é conhecido, bem como a perseguição internacional a Snowden, que vive em exílio na Rússia.

Oliver Stone, então, decide contar sua história com dois pontos de partida paralelos. Com uma montagem inteligente e didática, o experiente diretor apresenta primeiro o fato famoso, o vazamento das informações sigilosas, para depois dar a chance de Snowden (Joseph Gordon-Levitt) se explicar para Greenwald (Zachary Quinto) e Poitras (Melissa Leo). Dessa forma a história dispensa a burocrática figura do narrador, mas mantém a clareza da história. As idas e vindas do tempo são orgânicas, claras e fogem do óbvio.

Snowden, antes da fama

Snowden, antes da fama

A trama, no entanto, segue densa, carregada de terminologia complicada e aspectos obscuros de geopolítica. Para contrapor isso, Stone aposta nos aspectos humanos do protagonista, um personagem complexo e construído aos poucos na tela. Note-se, por exemplo, a diferença entre o Snowden delator, da cena inicial, com o Snowden cadete, da segunda sequência. Na primeira, um ser estoico, robótico, focado, paranoico. Na seguinte, um soldado — ainda focado, mas sem traços paranoides ou movimentação mecânica.

Ao construir os relacionamentos com sua namorada, Lindsay Mills (Shailene Woodley) e com seu mentor, Corbin O’Brian (Rhys Ifans), Snowden ganha tridimensionalidade e, acima de tudo, razão para suas ações. Ao mesmo tempo, não é um filme que se debruça apenas no conflito de prioridades (família x trabalho), mas que busca os limites entre o nacionalismo e os escrúpulos de um hacker/espião. Há uma curva dramática íngreme e Snowden precisa escalar tudo sozinho, o que adiciona ainda mais peso à trama. Esses dilemas, aliás, são explorados de forma inventiva por uma direção de fotografia segura de Anthony Dod Mantle. Sublinhe-se, por exemplo, o ápice do filme, quando Snowden rouba os arquivos sigilosos. A tensão é bem dosada pelas imagens dos arquivos sigilosos, que são refletidos em colegas de trabalho do analista de informações.

Snowden e Mills

Snowden e Mills

Se a montagem dá um ritmo seguro ao longa, o roteiro não é salvo de derrapadas ideológicas. Claro, o longa nunca se propôs apartidário ou imparcial — ou apolítico, se é que isso existe (dica: não existe). Mas a trajetória de Oliver Stone parece sempre impor um discurso. Os primeiros diálogos entre o então conservador Snowden e a jovem progressista Mills soam forçados, colocados ali para indicar que o encaminhamento à esquerda do delator seria a medida certa. Pessoalmente, eu até concordo com isso, mas é uma leitura simplista. Há ainda uma frase de Donald Trump pedindo o assassinato de Snowden jogada a esmo e que não cumpre qualquer função que não a de campanha.

Para o público brasileiro, há ainda um easter egg, uma surpresa. Com um discurso abertamente de esquerda, o filme fala muito da situação de países latino-americanos. Absorvendo a suposta agenda neoliberal norte-americana para o Brasil, o filme chega a indicar a ação dos EUA em relação ao petróleo brasileiro. Até a presidenta cassada Dilma Rousseff aparece em uma rápida sequência de frames.

A parcialidade, porém, é bem-vinda como leitura de uma grande imagem turva dada pela mídia. A figura pública de Snowden, bombardeada pelo governo dos EUA, precisava de um ponto de vista equilibrado. Claro, o discurso panfletário do epílogo do filme e a “participação especial” do próprio Snowden são tropeços, um ufanismo para chamar o protagonista da história de herói. Mas, vejam, o filme não pergunta se ele é um herói ou um traidor. Ele afirma.

(andrebloc@opovo.com.br)

Cotação: nota 6/8.

Ficha técnica
Snowden: Herói ou Traidor (EUA, 2016), de Oliver Stone. Com Joseph Gordon-Levitt, Rhys Ifans

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