Cinema às 8

O fôlego de “Sete Minutos Depois da Meia-Noite”

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Conor (Lewis MacDougall) e a mãe (Felicity Jones)

Conor (Lewis MacDougall) e a mãe (Felicity Jones)

Se eu pudesse só dizer uma coisa sobre “Sete Minutos Depois da Meia-Noite”, do espanhol J. A. Bayona, eu cumprimentaria a coragem da produção. Existe ali um purismo emocionante de alguém que, de fato, acreditava naquilo que foi filmado. Digo isso porque o filme remete diretamente ao meu questionável longa favorito, “Onde Vivem os Monstros”, de Spike Jonze, que é daquelas obras que muitos admiram e outros tanto dormiram assistindo.

Por mais diferentes que os dois filmes sejam, ali está uma corajosa opção por fazer um filme adulto com elementos infantis. Se “Onde Vivem os Monstros” mantém ainda temas para os pequenos, “Sete Minutos Depois da Meia-Noite” foi ainda mais ousado, apostando em uma trama complexa sobre sentimentos. Um drama de fantasia, o longa acompanha Conor (Lewis MacDougall), menino “grande demais para se criança e pequeno ainda para ser um homem”. Além dos problemas cotidianos da escola, como bullying, ele tem de lidar ainda com uma mãe com câncer avançado, um pai ausente e uma avó superprotetora. Uma noite, após um pesadelo recorrente ressurgir, um gigante surge de um teixo para lhe contar três histórias.

Conor próximo ao teixo

Conor próximo ao teixo

A atmosfera carregada de drama familiar é pesada para a maioria das crianças. O protagonista infantil, a fantasia, os dragões e bruxas, soam muito infatis para quem já cresceu. Ainda assim, Bayona foi fiel à sua história e a desenhou da forma que o roteiro pedia. O risco de não se conectar com qualquer dos públicos foi encarado com a mesma coragem do protagonista do filme.

Bayona já mostrara talento ao criar uma atmosfera assustadora e infantil em “O Orfanato” (2007). Dessa vez, ele consegue criar diferentes universos para ilustrar vários momentos. A solução de mostrar as histórias do gigante por meio de uma (linda) animação é acertada. O elemento é um sopro de vida e ajuda a deixar a trama mais leve, assim como ocorreu com “O Conto dos Três Irmãos”, segmento de “Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1”.

Conor e o gigante/árvore

Conor e o gigante/árvore

O plano do gigante é contar três histórias para Conor, todas no momento certo, e depois saber a verdade sobre o pesadelo do garoto. As conversas, misto de sonho com realidade, surgem como metáforas para a vida do rapaz. Algo como a relação entre Max e as criaturas de “Onde Vivem os Monstros”. Só que, ao contrário de Jonze, Bayona prefere sublinhar sentimentos por meio de diálogos, perdendo um pouco da força da metáfora.

Ainda que exista um desenrolar óbvio dentro das metáforas, “Sete Minutos Depois da Meia-Noite” desemboca em um terceiro ato recompensador. As atuações de MacDougall e Felicity Jones, bem como a voz empostada de Liam Neeson dão o tom de drama certo. A revelação final, quando o roteiro todo se ilumina, é arrebatador em sua sinceridade – apesar de ser por demais cruel para um público infantil. As histórias da árvore/gigante, no entanto, servem de bons exemplos de quebra de expectativa e uma resposta ao maniqueísmo dos contos-de-fadas.

“Sete Minutos Depois da Meia-Noite” é uma obra corajosa amadurecimento. Isto é, sobre aceitação do que a vida lhe impõe. É um filme que surge como mar calma e, aos poucos, vai arrebatando em uma ressaca poderosa. Acaba sendo um belo exemplo de destruição e reconstrução.

(andrebloc@opovo.com.br)

Cotação: nota 6/8

Ficha técnica
Sete Minutos Depois da Meia-Noite (EUA/ESP, 2016), de J. A. Bayona. Fantasia/Drama. 108 minutos. Com Lewis MacDougall, Felicity Jones e Sigourney Weaver.

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