Cinema às 8

“Os Pobres Diabos”: no cinema como no circo

Todo artista de vida sofrida de amor pela arte se vê sempre encarando a difícil escolha de seguir em sua doação ou buscar um novo rumo longe do mundo artístico. Em seu mais recente longa, “Os pobres diabos”, o cineasta cearense Rosemberg Cariry constrói o sofrimento do artista usando o arquétipo mais antigo da arte – o circo – para construir sua alegoria.

O Gran Circo Americano vive uma situação extrema. O leão já morreu de fome. O dinheiro não basta para pagar conta de luz, menos ainda a locação de um terreno em Aracati. Resta a eles montar o picadeiro em um descampado próximo ao município cearense. Lá, eles enfrentarão sua maior provação e, enquanto dividem o pão e o vinho de sua última ceia, tentam equilibrar o histórico da vocação/maldição de quem nasceu artista.

Visualmente estonteante, “Os pobres diabos” remete sempre à tormenta no horizonte captada pela fotografia de Petrus Cariry. Ora em planos confessionais distanciados, ora mais focado na galhofa, o diretor de fotografia ajuda a criar o equilíbrio do filme entre o drama da vida dos protagonistas e a comédia do circo. O roteiro de Rosemberg Cariry – meio “Os Palhaços” (1970), de Federico Fellini, meio “Os Saltimbancos Trapalhões” (1981), é hábil ao juntar o sentimento de não pertencimento dos artistas que se fingem mexicanos para ser mais bem aceitos com a adaptação teatral da sempre atual literatura de cordel. No caso, “A chegada de Lampião ao Inferno”, de José Pacheco, é mote para uma discussão sobre a política atual e alianças partidárias.

Tecendo histórias paralelas sob o picadeiro – o dono do circo apaixonado pelo faz-tudo do local, a musa circense em busca do amor que vê na novela, a indecisão do palhaço entre o amor ao circo e às mulheres –, Rosemberg constrói um rico tecido humano e transforma a dedicação e a pobreza dos integrantes em algo palpável. Contando com uma atuação equilibrada entre humor e drama de Chico Díaz (o palhaço mulherengo Lazarino) e com a delicadeza de Gero Camilo (Zeferino, o responsável homem da família circense), o longa possui na construção dos personagens e suas minúcias sua maior força.

O desenho sonoro pulsante de Érico Paiva ajuda a compensar os excessos da trilha musical. O equilíbrio entre a mixagem e a música é ótimo quando pende para o primeiro, mas a musicalidade excessivamente melosa acaba forçando o desenrolar dramático. Em meio a tanto desalento, por vezes o silêncio fala bem mais alto do que qualquer música.

Ao enfrentar a própria encruzilhada de sua carreira artística, Rosemberg Cariry entrega um de seus filmes mais maduros e atuais, tendo sido claramente influenciado por uma de suas obras de maior sucesso: Petrus Cariry, diretor de “Mãe e filha” e “O Grão”. Melhor que a encruzilhada da arte é a via de mão dupla do conhecimento, que atravessa gerações para deixar mais robusto o eterno Gran Circo Americano no cinema cearense.

(Texto publicado originalmente no caderno Vida&Arte, do jornal O POVO, em 2013, após a primeira exibição pública do filme, ocorrida no Festival Cine Ceará)

(andrebloc@opovo.com.br)

Cotação: nota 6/8

Ficha técnica
Os Pobres Diabos
(BRA, 2013), de Rosemberg Cariry. Comédia/Drama. 93 minutos. 12 anos. Com Silvia Buarque, Gero Camilo, Chico Díaz e Everaldo Pontes.

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