Cinema às 8

“O mínimo para viver” – O problema à flor da pele

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Poucos filmes da atualidade ousaram tocar no tema anorexia e ainda menos quando o assunto é abordado de uma forma tão profunda e crua quanto “O Mínimo Para Viver”. Ellen, vivida por Lily Collins, vive uma conturbada relação familiar com a mãe ausente (Valerie Palicar), que evita ao máximo encarar o problema de saúde da filha, e a madrasta errática Susan (Carrie Preston) que acaba tornando a situação ainda mais complicada, apesar de aparentemente estar tentando ajudá-la.

A atriz Lily Collins vive a personagem Ellen

Ellen, de certa forma, já é uma “veterana” em diversos tratamentos da anorexia, e mostra uma postura bem indiferente a respeito de todos eles, bem como da própria vida. Essa postura fechada ganha uma explicação sinistra ao longo de alguns minutos do filme, quando descobrimos seu talento artístico por meio de desenhos que costuma usar para se expressar.

Susan, ao ouvir falar sobre um médico com um tratamento que foge do padrão convencional das internações em hospital, resolve levar Ellie para uma conversa com o Dr. Beckran (Keanu Reeves). Com alguma resistência, ela resolve participar da experiência de conviver em uma casa com outros pacientes com distúrbios alimentares semelhantes e até mais graves que o dela.

Ellen passa por uma adaptação em seu novo tratamento

A produção feita para a Netflix causou polêmica antes mesmo da estreia. Alguns criticaram o filme por exibir diversas práticas reais de pessoas com distúrbios alimentares e o acusaram de um possível incentivo a quem sofre dessa condição, bem como expor de maneira bem explícita a imagem da magreza com ossos à mostra. De fato, há muitos momentos delicados que podem ativar alguns “gatilhos” a quem já passou por tais experiências.

Lily Collins se entrega ao papel de maneira muito convincente e é fundamental para termos uma identificação com os inúmeros dilemas internos e o sofrimento de Ellen. Sob a direção de Marti Noxon, o filme possui momentos bastante delicados por ir ao âmago da profunda angústia vivida por Ellen, bem como o impacto na vida de todos que convivem com ela e temem o pior, como a sua irmã, que, por mais que não queria aparentar um sofrimento pela condição de Ellen, internaliza tudo dentro de si – ainda que não por muito tempo.

Keanu Reeves vive o médico Dr. Beckram

É preciso ressaltar também o apoio dos outros personagens que também se destacam no longa. Keanu Reeves, mesmo com o papel um pouco diminuto é ponderado e dá um tom honesto ao seu papel de doutor, sendo responsável por alguns dos diálogos mais densos ao longo do filme.

Talvez a produção peque por desenvolver pouco os núcleos dos outros personagens na parte final da produção, eles internam bem seus dramas e interagem apenas quando há alguma questão envolvendo a personagem principal.

Assim sendo, filmes envolvendo essa temática trazem uma questão rodeada de tabus, mas que se torna necessária ser discutida. A maneira como o problema é externalizado é que requer uma delicadeza e atenção para permitir que haja abertura para o diálogo e discussões que são cada vez mais importantes no tratamento de quem precisa de ajuda, mas não sabe como dar o primeiro passo.

(catherinesantosm@gmail.com)

Filme disponível na grade da Netflix.

Cotação: nota 7/8

Ficha técnica:
O mínimo para viver (To the bone, EUA , 2017), de Marti Noxon. Drama. 107 minutos. Com Lily Collins, Keanu Reeves e Dana L. Wilson.

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