Cinema às 8

“Jurassic World: Reino Ameaçado”: Enfim, o medo

Entre tantas cenas marcantes do clássico “Jurassic Park: Parque dos Dinossauros” (1993), de Steven Spielberg, nada representa mais a eficiência do filme enquanto obra de gênero do que a perseguição dos velociraptors às crianças. Ali, Spielberg aposta no suspense, na sugestão do perigo e na inteligência dos dinossauros para imprimir medo a uma ameaça provavelmente inédita no cinema mundial. As características de horror em uma aventura (quase) familiar fizeram do filme mais que um blockbuster lucrativa — o filme virou um clássico instantâneo.

Corta para 2018, com três sequências de nível inferior e uma repetição da fórmula “crianças + aventura + dinossauros comendo homens maus”. Após o terrível “Jurassic World – O Mundo dos Dinossauros”, de Colin Trevorrow, que, por mais que tenha sido lucrativo é, criativamente, o fundo do poço da franquia, os dinossauros de Spielberg podiam ter perdido a força. Eis que o eficiente Juan Antonio Bayona surge com este divertido “Jurassic World: Reino Ameaçado”, filme que consegue equilibrar o ritmo de uma aventura e o clima de um terror, sem esquecer de um belo dilema moral digno das melhores ficções científicas. O filme ainda empalidece em comparação com a obra original. Mas, bem, é covardia comparar.

Se Trevorrow se fiava quase que exclusivamente no charme do casal de protagonistas, Owen (Chris Pratt) e Claire (Bryce Dallas Howard), desta vez a obra aposta em um elenco de apoio com que, de fato, nos importamos. Zia (Daniella Pineda) é o destaque absoluto, mas Franklin (Justice Smith) traz um bom alívio cômico e, tirando um ou outro excesso, a criança da vez, Maisie (Isabella Sermon) cumpre bem o seu papel. Maisie, aliás, é responsável pelo ápice do filme, uma solução emocionante para um dilema científico que surge ao fim do terceiro ato. A volta da velociraptor Blue é outro fator dramático, já que ela é o único dinossauro com que, de fato, criamos um laço em qualquer um dos cinco filmes.

Excluindo-se a obra original, o terceiro ato do longa, passado na mansão de Benjamin Lockwood (James Cromwell) é facilmente o melhor momento da franquia. Ali, há genuínos momentos de horror, gênero que Bayona já provou conhecer bem ao filmar o espanhol “O Orfanato” (2007). Vez por outra, Bayona aposta mais no “jump scare”, o que imprime um ritmo mais acelerado. Mas ele também consegue ser sugerir, como faz com o foreshadowing do novo dinossauro geneticamente alterado da obra. É, em suma, um filme com pequenas doses de aceleração, entremeadas por momentos de pura contemplação tecnológica da criança desses animais fantásticos criados pelo cinema (ou foi por cientistas?). Ou seja, é um filme que pode ostentar o título de “Jurassic Park”.

Jurassic World: Fallen Kingdom
Blue (Raptor) with Chris Pratt as Owen

E daí que há a volta dos drs. Ian Malcolm (Jeff Goldblum) e Henry Wu (BD Wong). Sequências, prequels, spinoffs por vezes se equilibram (pelo menos financeiramente) no mais vazio saudosismo e como ser mais óbvio do que trazer de volta personagens das obras originais? As pontas, no entanto, entram na discussão moral do filme, o cerne ético-científico da obra. Ou seja, não é uma glorificação rasa do que Spielberg pintou em 1993, mas um passo a mais, uma proposta de problematização na presença dos gigantes extintos há milhares de anos. Por mais entretenimento que “Jurassic Park” sempre tenha sido, havia inteligência ali. Havia questionamento. Bayona entende isso e se propõe a seguir pensando. “Reino Ameaçado” não é um pastiche de uma obra-prima. Mas é uma ficção científica (com elementos de terror, aventura, drama etc) das mais gostosas de se ver.

Cotação: nota 6/8

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