Cinema às 8

O Predador: Caçada involuída

Em 1987, a ameaça era desconhecida. Em meio a uma selva na América Central, um grupo de soldados é massacrado por uma criatura desconhecida e de força incomensurável. Passados 30 anos e aquele alienígena caçador de humanos já é figura familiar. Com o objetivo de trazer evolução a um dos vilões mais famosos do cinema de ficção científica/horror, O Predador chega hoje aos cinemas.

Dirigido pelo eficiente Shane Black (de Beijos e Tiros/2005 e Homem de Ferro 3/2013), a obra aposta numa incrementação do ethos da criatura sanguinária. Na obra original, em que o “Predador” é derrotado por Arnold Schwarzenegger, o que sabemos sobre o vilão é que se trata de um extraterrestre de força descomunal, tecnologia absurdamente avançada e que veio à Terra para “caçar”. Já em 1990, após Danny Glover vencer o alienígena em plena Los Angeles, entendemos que os predadores são, na verdade, uma espécie avançada — e tanto quanto numerosa.

Dessa forma, até então, o tal jogo entre predadores e humanos não passava de esporte. O Predador dá um novo take à questão. Segundo a nova obra, a resposta de tudo está na evolução. Parte-se de uma das características mais sanguinárias do antagonista — a pecha por arrancar cabeças com parte da espinha dorsal. Segundo o roteiro de Fred Dekker e Shane Black, isso é apenas uma forma dos predadores de coletarem material para se incrementarem geneticamente, transformando-se numa espécie ainda mais dominante.

Até aqui O Predador consegue ser original. Até interessante. Mas acaba aqui. O resto todo é vazio de significado, de questionamento e, vá lá, de qualidade.

Os problemas começam com o protagonista, o atirador de elite Quinn McKenna (Boyd Holbrook) — em resumo, o pior pai do mundo, que ressurge para salvar o filho após ele mesmo ter feito uma bela lambança. Depois de um encontro casual em que um predador mata a equipe do soldado, McKenna consegue vencer, por acaso, o rival e leva parte do equipamento do extraterrestre para ter provas caso o Exército tente “cobrir os rastros” da ameaça alienígena. Acaba que o tal pai acha uma boa enviar a supertecnologia para uma caixa postal, o que descamba com todo esse equipamento caindo no colo de Rory (Jacob Tremblay), filho de Quinn.

A ideia de representar alguém dentro do espectro autista como um dos protagonistas do filme é uma bela surpresa. Mas o Rory é recheado de falta de empatia — ele chega a matar uma pessoa sem querer e nem esboça reação — e é jogado no clichê do “autista gênio”, como se a condição fosse um pressuposto evolutivo. A ideia era parear o conceito de evolução em duas pontas da trama — só que passa longe de ser convincente.

A questão fica ainda mais delicada quando vemos a representação que o filme dá para transtornos psiquiátricos. Antes do segundo confronto com o vilão, Quinn conhece um grupo de ex-soldados — obviamente uma chance de o público tentar adivinhar quem o predador irá retalhar mais pra frente. O que os une é o afastamento por questões médicas — desde o estresse pós-traumático a tentativa de suicídio. E esses problemas são todos tratados como alívio cômico. É isso. Questões psicológicas gravíssimas são vistas como motivo de riso.

Como filme de ação/horror, O Predador é falho. A ação é pouco atraente, ainda mais porque o gore é introduzido logo de cara, quebrando qualquer curva de crescimento. Como drama familiar a falha é ainda mais brutal. A ideia de um pai com estresse pós-traumático e que se afastou da família já é clichê. Quando o sujeito sai assassinando soldados na frente do filho — que, mais uma vez, nem esboça reação — a ideia de redenção paterna se escancara como parco recurso do roteiro. E isso soma ainda mais tempo nos infinitos 1h47min da obra.
Shane Black conseguiu o mais difícil: trazer algo de novo para um vilão que só funcionou quando surpresa. O problema é que ele falhou miseravelmente em todo o resto.

Nota: 2/8

Texto publicado originalmente na coluna Cinema & Séries, do Vida&Arte (O POVO)

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