Discografia

Odair José, O trovador da luz vermelha (parte 2)

Fotos: Sara Maia

Odair José – (pausa) É… Alguma coisa. Mas, naquele momento, eu era aquilo ali. Você sabe, inclusive, é uma época muito forte. Hoje eu tenho um público, e isso está acontecendo cada vez mais, o público está jovem. As pessoas mais antigas não curtem mais o meu trabalho, por que as pessoas mais antigas gostam de uma coisa mais sonífera. E eu sou mais barulhento mesmo. Eu canto música desse disco até hoje nos meus shows. Mal canto do segundo (Meu grande amor, 1971). Então, tem muito do Odair ali. Mas existia, por uma influência do momento e da própria gravadora, um pouco de negócio de Roberto Carlos. Tem uma coisa do Odair José, já de uma coisa de rua, por que eu acho que sou um cronista musical. Por que é pegar o assunto da rua, as merdas que acontecem na vida das pessoas, e trazer aquilo pra música. Aquilo que pode e que não pode, trazer o escondido das pessoas pra canção. E ali já tinha isso. Mas tinha também essa influência do Roberto, daquele momento de Jovem Guarda, e da própria gravadora que vivia vitoriosamente em cima disso.

DISCOGRAFIA – Dois grandes sucessos da sua carreira são dessa época, que são Eu vou tirar desse lugar e Um vida só (pare de tomar a pílula)…

Odair José – O Eu vou tirar… encerra esse ciclo da CBS e “a pílula” vem depois, num novo ciclo, quando eu fui pra Polygram. Eu fiz mais um disco na CBS, onde eu estou sentado nas arquibancadas do Maracanã. Foi um pedido meu. Eu sempre fui assim de ter as minhas ideias e pedir às pessoas para fazerem. Os meus momentos de sucesso são creditados a mim, e os fracassos também. Ninguém teve nada com os meus erros nem com os meus acertos. Eu sempre trabalhei com as pessoas me apoiando naquilo que eu queria. Por que eu digo que o período de 1980 até 2002 eu não curto o trabalho? Por que eu deixei as pessoas me usarem pra fazerem o que eles queriam. E não pode ser assim. Eu tenho que usar as pessoas pra fazer o que eu quero.

DISCOGRAFIA – E onde nasce o seu jeito de compor?

Odair José – Depois desse segundo LP, meu contrato com a gravadora acaba. E eu vendia até bem os discos. Eu tenho um certo problema nesse segundo disco, que eu volto a participar daquele LP, As 14 Mais. Mas eu gravo uma faixa chamada Vou morar com ela (parceria com Rossini Pinto), que era uma coisa atrevida. Eu comecei a cantar uma música… O Roberto Carlos falava do amor no portão, os compositores da época falavam daquele negócio de “eu te daria o céu” e eu vinha mais da noite carioca. Meu negócio era mais de boate, dos Lupicínio Rodrigues, Ataulfo Alves. Por isso eu falei que falo mais das merdas das pessoas, das dores, dos amores reais. E as pessoas já estavam fazendo sexo e os compositores não falavam disso. Falavam que beijava na boca e ia pra casa. Isso não era verdade. Na música Vou morar com ela eu falava disso, e usei um músico chamado Dom Salvador, que era um negão genial. O diretor da CBS, Evandro Ribeiro, colocou a música nas 14 Mais, mas não gostou do meu atrevimento. Ele gostava numa coisa meio Lafayette, Renato e Seus Blue Caps, aquelas paradas. E aquilo ali não foi do agrado dele. Então o meu contrato não foi renovado. Foi quando o Rossini Pinto chega pra mim e diz: “seu contrato acabou, os caras não tão muito interessados em você” e contou que era por esses motivos. Eu não me encaixava no esquema da CBS. Mas ele queria me dar outra oportunidade, num compacto simples, mas sem contrato. É quando eu gravo Eu vou tirar você desse lugar e vendo um milhão de compactos quando o mercado só suportava 400 mil. O Roberto Carlos que vendia disco à beça, vendia 300 mil. Quando eu mostro a música da prostituta, o próprio Rossini Pinto cai de pau. “Porra, eu to arrumando uma oportunidade pra você consertar seus erros e você me vem com uma música de prostituta?” (risos). E eu falei, “não, cara, isso é legal. Vai dar certo”. Como eu conseguia dobrar ele, gravei. Tanto é que o Eu vou tirar… é o lado dois do compacto, por que ele não gostava da ideia.

DISCOGRAFIA – Ainda assim você sai da CBS. Como foi a repercussão da música?

Odair José – Quando tem aquele grande estouro, me lembro que a TV Globo fez uma pesquisa na época perguntando: você tem o disco do Odair José? Muita gente tinha. Aí eles perguntavam: você tem uma vitrola? Não, mas eu tenho o disco pra quando eu comprar uma vitrola. Foi vendido mais disco do que existia vitrola no país. Aí é quando eu assino um contrato com a Globo e viro artista exclusivo deles por dois anos, o que me ajudou muito. A toda hora eu tava no vídeo e logo me tornei conhecido. A CBS quis renovar o contrato, mas aí quem não quis fui eu, por conta dessa filosofia de gravação. Eu queria gravar outro tipo de coisa. Eu nunca gravei nada que eu não quisesse gravar. E eu já tinha um projeto novo, que foi o primeiro disco que eu fiz na Polygram (Assim sou eu, 1972). Eu fui estar com esse presidente que achava que eu era atrevido (o da CBS), ele disse que precisava de um disco no mercado correndo e eu falei que tinha um pronto, só que é assim. Eu já tinha todas as músicas, ideia da capa e eu sabia exatamente com quem eu ia gravar. Ele falou que daquele jeito não trabalhava e eu fui pra Polygram gravar. Eu queria gravar com o José Roberto Bertrami tocando piano, Mamão (Ivan Conti) tocando bateria. Nessa época nem existia o Azymuth (banda formada por Bertrami, Mamão mais o baixista Alex Malheiros), eles se conheceram quando eu catei eles e levei pro estúdio. Eu queria um som mais Richie Havens, mais Crosby, Stills e Nash, mais de violão. Evidentemente que eu não conseguia fazer por que eu não tinha talento pra isso, mas a intenção era fazer. E aí que começa a fase do Odair José que estoura no Brasil inteiro. Saio dessa coisa da imagem da CBS, desse negócio de Jovem Guarda, começo a vender muito disco e viro um ídolo.

DISCOGRAFIA – Nessa época você ganhou dois títulos, que são “Bob Dylan da Central do Brasil” e o “terror das empregadas”. Isso lhe incomodava?

Odair José – Não incomoda, isso é um conceito. O “Bob Dylan da Central do Brasil”, na verdade, eu nunca entendi bem. Eu nunca fui fã do Bob Dylan. Respeito, sabia que o John Lennon babava um ovo danado pra ele, até imitava as roupas que ele usava, mas o meu ídolo dos Beatles era mais o Paul McCartney. Mas, com esse meu estouro, de vender muito disco, foi feita uma matéria comigo por uma jornalista chamada Hildegard Angel onde eu ficava andando com ela. Foi quase o jornal inteiro, tirando as partes necessárias. E ela deu esse título, “Bob Dylan da Central do Brasil”. Eu nunca entendi. Mas teria que perguntar isso pra ela (risos). Já o “terror das empregadas” foi por que o Paulo Coelho fez uma música com a Rita Lee (Arrombou a Festa). As pessoas veem isso, às vezes por uma desinformação, de uma forma irônica, mas quando foi feita a música da empregada (Deixe essa vergonha de lado), essa profissão não era reconhecida. Era um bico. Nós fizemos uma campanha, fizemos um show, alguns políticos toparam a ideia e levaram projeto. Nasceu dali o negócio da profissão empregada.

DISCOGRAFIA – Mas os títulos não lhe incomodam?

Odair José – Não me incomoda. Nenhum título me incomoda. Eu acho apenas que o título, o apelido é conceito. Acho que existe música boa e música ruim. Ela só pode se definir dessa forma. O que eu não gosto é do olhar preconceituoso sobre a arte. Quem escreve sobre a arte não pode ter o olhar de preconceito. Mas, eu faço o meu trabalho, quem vê fala o que quiser.

Continua no próximo post…

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