Discografia

A maldição do Itamar Assumpção

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O termo maldito sempre vem colado ao nome de Itamar Assumpção.  Cantor, compositor e músico paulista, ele pagou um preço alto em nome da liberdade artística. Brigando com qualquer um que viesse insistir por uma música na novela ou um hit nas rádios mais pop, ele preferia fazer as coisas do seu jeito, compondo da maneira que julgava verdadeira. Daí, nove dos seus dez discos terem sido lançados de forma independente. Sem música na novela ou hit nas FMs, ele acabou se tornando um ilustre desconhecido para a grande maioria do público.

Por conta dessa teimosia para defender seu trabalho, Itamar morreu em 2003 carregando também a fama de difícil. “Eu me invoco. Eu brigo. Eu faço e aconteço. Eu boto pra correr. Eu mato a cobra e mostro o pau”, alertava em Nego Dito. Por sorte, pessoas como Cássia Eller, Ney Matogrosso e Zizi Possi se deram ao trabalho de explicar a obra desse homem que transportou para a música todos os seus dramas e alegrias. Mais um nome a ser acrescentado a essa lista é o de Zélia Duncan, cantora e compositora que sempre abriu espaço para o amigo paulistano em seus discos. Agora, no fim de 2012, ela resolveu fazer mais e lançou Tudo Esclarecido, tributo com 13 canções de Itamar, das quais seis ainda permaneciam inéditas.

Outras 11 canções de Itamar já haviam sido gravadas por Zélia, uma amiga e fã confessa. Entre elas, o hit Dor elegante, uma forma poética e delicada do autor para descrever o câncer que o corroia. Ainda Milágrimas, que encerra Pré-pós-tudo-band, é uma ode à simplicidade e ao comum, que contou com a participação da filha do compositor, Anelis. Assim como essas, a proposta de Tudo Esclarecido é espanar a poeira que ainda embaça a obra do paulistano, principalmente lhe dando um ar mais pop, refrescante e colorido.

Para isso, Zélia convocou o produtor Alexandre Kassin, nome ligado a boa parte das modernices musicais brasileiras (de Los Hermanos a Moreno + 2). Ele, então, arregimentou um time de músicos também ligados às contemporaneidades nacionais, como Marlon Sette (trombone), Marcelo Jeneci (teclados e acordeom) e Stephane Sanjuan (bateria e percussão). Também se aliaram ao projeto Christyaan Oyens, parceiro constante da cantora desde seus primeiros momentos, além de Ney Matogrosso e Martinho da Vila.

Pronto, com o time montado, já é possível adentrar nas linhas tortas, pensamentos densos e melodias intrigantes de Itamar Assumpção. Soando com leveza, Tudo Esclarecido deixa claro a mescla das vocações de Zélia e seu homenageado logo na abertura com o roquinho Tua boca (que ficou parecido com Me revelar). Tirada do sensacional Isso vai dar repercussão, disco póstumo dividido com o percussionista Naná Vasconcelos, Cabelo duro dá o recado na medida: “eu tenho o cabelo duro, mas não o miolo mole”. Ney entra na sequencia, esbanjando classe no xote Isso não vai ficar assim.

Até quando queria falar de amor Itamar Assumpção tinha um modo bem particular de se expressar. Ganhando um ar de romance novela das sete, Mal menor começa determinando “você vai notar olhando ao redor que sou dos males o menor”. Já o baião pop Vê se me esquece joga graça sobre um amor desfeito, com Zélia driblando habilmente a letra cheia de pontos escorregadios. Brincando com a língua inglesa, o samba É de estarrecer é uma parceira inédita com Alice Ruiz que ganhou o auxílio luxuoso de Martinho da Vila nos vocais. A música que parece mais com o modo Itamar de ser é o samba/rap Zélia mãe Joana, que encerra o disco.

Sem pontos altos ou baixos, o melhor deste Tudo esclarecido é a continuidade do trabalho de resgate da obra de Itamar Assumpção. Depois do filme Daquele instante em diante (2011), retrato delicado dirigido por Rogério Velloso, e da Caixa Preta (2010), box lançado pelo SESC que agrupou toda a obra do paulistano (incluindo três discos póstumos), aos poucos suas canções vem conquistando novos espaços e admiradores. É uma prova de que, se houve uma maldição de Itamar, é a nunca ser esquecido.

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