Discografia

Secos & Molhados 40 anos: Corpo transgressor

Por Flávio Queiroz, sociológo, professor da UVA, autor da dissertação “Secos & Molhados: Transgressão, contravenção” e da tese “Ney Matogrosso: sentimento contramão. Transgressão e autonomia artística”

secos-e-molhadosO grupo musical Secos & Molhados, que assumiu contornos de fenômeno de massa, está completando 40 anos. Este começou sua trajetória artística no cenário cultural, a partir de junho de 1973, na cidade de São Paulo, após o lançamento de seu primeiro  long play pela Continental discos S.A. Dessa maneira, o nascente conjunto provocou uma mudança dentro do cenário da indústria fonográfica e do show business, em função da venda de quase um milhão de discos, como também pelo grande contingente de shows no Brasil e exterior, com expressiva divulgação nas emissoras de rádio, programas de televisão, jornais e revistas do momento.

O referido grupo formado por João Ricardo (violões de 6/12 cordas, harmônica de boca e vocal), Ney Matogrosso (vocal), Gerson Conrad (violões de 6/12 cordas e vocal) e Marcelo Frias (bateria e percussão), começou seu percurso artístico com uma temporada em São Paulo no Teatro Ruth Escobar, depois seguiu para o Rio de Janeiro, onde se apresentou no Teatro Teresa Raquel, encerrando sua temporada na cidade com o show no estádio coberto do Maracanãzinho. No exterior, apresentou-se na cidade do México, tendo grande repercussão em outros países. Em agosto de 1974, foi lançado o segundo LP e logo após seu lançamento em circuito nacional se desfaz, com a saída do vocalista Ney Matogrosso, atitude posteriormente seguida por Gerson Conrad.

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O grupo acontece dentro de um contexto político adverso, onde predominava uma ditadura militar em nosso país, estávamos no Governo de Emílio Garrastazu Médici. Os militares exerciam não só uma censura política, bem como uma censura de caráter eminentemente moral e o conjunto representava naquele momento um atentado a moral e aos bons costumes da época. Um homem seminu, com o rosto pintado, rebolando e cantando fino, era demais para os militares e moralistas de plantão.

grupo-secos-e-molhadossecosemoA esquerda também não entendeu a performance do grupo, sobretudo da insólita figura de seu vocalista, Ney Matogrosso e por meio de seu “patrulhamento ideológico” dentro dos princípios da arte engajada repudiou o comportamento estético do conjunto. Mas os “malucos”, os hippies, os transviados, transloucados, desbundados, porras-loucas, viram naquele ser enlouquecido no palco um ideal, sobretudo de liberdade. Com mais algum tempo, vimos um outro público se formar diante do conjunto, as crianças. Elas os adoravam. O universo lúdico nos versos da música O Vira as fascinavam, pediam como presente de natal o LP do Secos, onde seus quatro integrantes apareciam com suas cabeças decepadas e expostas em bandejas entre especiarias de um velho armazém de Secos e Molhados.

O referido grupo, como nos sugere Aldous Huxley em sua obra The Doors of Perception (As portas da percepção), ajudou a abrir as nossas tão duras e rígidas portas da percepção, a fazer uma revolução individual, era como se passassem a mensagem: façam também vocês, nós estamos fazendo a nossa parte, sejam livres. Assim como nos disse o próprio vocalista do grupo Ney Matogrosso ao referir-se a sua atuação dentro do conjunto, em entrevista concedida ao Fantástico em 2003 pela Rede Globo de Televisão: “eu acho que, na verdade, nós ajudamos a clarear, a ‘desencaretar’ o Brasil”.

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No entanto, passado esses 40 anos, os fãs e admiradores do conjunto ainda perguntam: “que fim levaram todas as flores”? Gerson me respondeu que certamente foram parar no jardim do Ney. João Ricardo afirmou que estão em seus jardins lindas belas e perfumadas. Saber onde elas estão não é tarefa nossa, mas sejam onde elas estiverem, continuam a romperem tabus e a inspirar novos talentos, pois a obra do grupo é atemporal, foi, é e será sempre vanguarda. Esse foi o seu maior legado: o legado da imortalidade da arte, do fazer artístico, da transgressão, da contravenção.