
O projeto foi criado pela produtora Margot Rodrigues, com a ideia de celebrar os 35 anos de carreira fonográfica de Elba Ramalho em paralelo com a obra de Luiz Gonzaga. Por isso, Cordas, Gonzaga e afins mescla as canções do Seu Luiz com as de outros muitos compositores que fizeram parte da história da intérprete e foram iluminados pela sanfona do Rei do Baião. O resultado é um espetáculo sublime, para resumir em uma palavra. Diminuindo a intensidade do seu fogo nordestino, Elba se mostrou uma intérprete completa e emocionada, cuja voz se mantém inteira e ainda mais apurada.
A alteração de horário, das 21h para as 20h, foi ignorada pelo público que só chegou mesmo às 21h. E fez muito bem, uma vez que o show começou depois das 21h. É fato que o local escolhido para a apresentação, a Praça Verde do Dragão, tinha vantagens e desvantagens para o modelo do show. Se, por um lado, aquela arena aberta dá vontade de olhar para o céu e ver como ele está lindo, por outro é grande demais e dificultou o mergulho num espetáculo tão íntimo.
Sim, Cordas, Gonzagas e afins é um espetáculo íntimo até nos seus momentos de explosão. A festa forrozeira permeia todo o ótimo repertório, mas a ideia não é fazer o público dançar. Alguns até reclamaram disso, ou por que não entenderam a ideia ou por que não admitiam ver a “Tina Turner do sertão” deixando de lado sucessos festivos que costuraram mais de três décadas de história. Aposto mais na primeira hipótese, uma vez que o espetáculo se concentra muito na figura de Elba Ramalho, que, por várias vezes, agiu como se estivesse numa apresentação com sua banda.
O roteiro de Cordas, Gonzagas e afins promove uma viagem do sertão ao mar, contada por canções de Chico Buarque (Não sonho mais, um dos grandes destaques da noite), Caetano Veloso (O ciúme), Chico César (Beradero) e muito Luiz Gonzaga. E tudo isso embalado nos arranjos diretos e acessíveis de Sérgio Campelo, do SaGrama. Como show de uma das maiores intérpretes nacionais, o resultado é uma lindeza que tira a trajetória recente de Elba do lugar comum. Na parte teatral, algo tão alardeado, ficou devendo. Faltou algo que introduzisse o público na proposta, o que teria evitado alguns constrangimentos – não faltou quem ficasse no pé do palco pedindo Banho de cheiro.
Diante dos pedidos, Elba Ramalho, mesmo fora do programa, voltou para dar um bis. Embora a volta ao palco só tenha confundido mais o público, nesse momento, ela teve que explicar que o que havia sido apresentado era mais que um show como tantos outros da sua carreira. Ainda assim, atendeu aos pedidos de “mais um” e refez Domingo no parque, que, no roteiro, foi apresentada com falhas. “Essa a gente não ensaiou”, explicou a paraibana. Por fim, pediu um dó maior e improvisou (improviso?) o tão implorado Banho de cheiro.
Tendo sido esta uma das primeiras apresentações de Cordas, Gonzagas e afins, é fato que o roteiro ainda pode sofrer alterações e as canções melhor ensaiadas. Há espaço para mais interpretação cênica e menos show, o que exige locais adequados para o tipo de apresentação. Algo sem a pompa de um teatro, mas sem a abertura de uma grande arena. Seguindo esse caminho, Cordas, Gonzagas e afins, naturalmente, cresce nas intenções e emoções.