
E foi do meio dessa alma turbulenta que nasceu uma das cantoras brasileiras mais populares das décadas de 1950 e 60, responsável por algumas dezenas de sucessos como Meu mundo caiu e Ouça. Fora do Brasil, Maysa também tentou engatar uma carreira, mas acabou se sabotando em exageros alcoólicos que alimentavam mais perseguição que sofria da imprensa do que a trajetória artística. Ainda assim, ela conseguiu gravar dois discos e alguns compactos para o mercado internacional.
Também presente no pacote de cinco discos, The sound of love é, na verdade, o mesmo Convite para ouvir Maysa N° 2, gravado em São Paulo em 1959, e relançado nos EUA pouco depois. O mesmo disco chegou à Argentina como Invitacion para escuchar a Maysa. A ideia da cantora, já uma estrela aos 22 anos, era engatar de vez a carreira internacional e se livrar dos jornalistas que noticiavam cada deslize do seu dia. Em Nova York, ela iniciou temporada no Blue Angel, bar de jazz que já tinha vivido dias melhores, mas acabou sendo cortada do cartaz por conta das sucessivas faltas e bebedeiras.
Os outros três discos de Maysa Internacional são compilações de compactos gravados na Espanha, Portugal, Itália e em festivais brasileiros. Neles estão fundamentos da Bossa Nova, como Este seu olhar e Chega de saudade, e standards gravados no mundo todo, como What are you doing the rest of your life. Maior patrimônio do compositor belga Jacques Brel, Ne me quitte pas também está na coleção. Esta balada foi escolhida para encerrar a participação de Maysa no palco nobre do Olympia de Paris e obrigou a cantora a voltar outras duas ao palco para repeti-la, tamanho os pedidos do público. “Fiquei enrolada na cortina enorme do Olympia e não tinha maneira de sair de lá. O povo aplaudindo e eu lá, presa, sem poder nem respirar”, escreveu a artista numa autobiografia inacabada.
[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=8gtOXoXeWQc[/youtube]Descrita do Diário de Notícias de Lisboa como uma “rapariga de um tipo moreno e estranho, de rara beleza, num corpo forte e alto”, Maysa não atingiu o sucesso que queria nos Estados Unidos, mas angariou bons fãs, principalmente, em Portugal e na Argentina. Entre porres homéricos e apresentações emocionantes, ela foi no estrangeiro a mesma artista errática que foi no Brasil. Enquanto dormia em praças e bebia com os moradores das ruas de Paris, era também aplaudida por Astor Piazzola e Gato Barbieri na Argentina. Porções divergentes que só faziam sentido quando viravam música.