Discografia

“A lei que permite censura prévia é grave ameaça a iniciativas de contar vidas”, critica Mário Magalhães

Foto: Leo Aversa - Crédito obrigatório.Carlos Marighella ficou conhecido como um aguerrido combatente da Ditadura Militar no Brasil. 50 anos depois, agora é seu biógrafo, o jornalista Mário Magalhães, quem luta contra a censura no Brasil. No caso, à censura às biografias não autorizadas. Até a aprovação do projeto de lei que libera a publicação de obras biográficas independente da autorização de familiares, ele adianta que não dedicará mais seu tempo a esse tipo de trabalho.

Como você recebeu a notícia de que a votação da lei das biografias seria adiada? 

A conspiração a favor do silêncio histórico, a cultura do segredo e a aversão ao escrutínio público das coisas de interesse público, combinadas, têm muito poder. A manutenção da legislação que permite a exigência de censura prévia para biografias não autorizadas é um revés da democracia e dos direitos de expressão e informação.  

Depois de toda a discussão que houve em 2013, o que aconteceu em relação às biografias?

De concreto, muitos biógrafos cancelaram ou adiaram projetos, temerosos que a censura impeça a circulação de livros.

Você acredita que a discussão envolveu o Brasil como um todo, ou ficou restrito aos biógrafos e ao Procure Saber?

Apesar das limitações, o debate em curso sobre o direito de conhecer e contar a história é o mais amplo já feito no país.

O Procure saber acabou se transformando na voz dos artistas, principalmente da música, contra a mudança da legislação. Há, inclusive, críticas que dizem que o interesse do grupo vai muito além da questão das biografias. Como você analisa hoje os argumentos o PS? Há alguma possibilidade de diálogo entre biógrafos e o PS?

Ignoro as ações do Procure Saber alheias à controvérsia sobre o direito de não publicar biografia chapa-branca. Há uma questão de princípio: é inaceitável que o Brasil continue a ser a única grande democracia do planeta a permitir censura prévia, ou exigir autorização de biografados e seus herdeiros, para a publicação de biografias.

Você chegou a declarar que, depois de nove anos dedicados a Marighella, não pensava em realizar outro projeto deste tamanho. Ainda pensa assim?

Só um masoquista empenhará nove anos de trabalho em um projeto cuja circulação está permanentemente ameaçada por uma legislação que, embora introduzida na democracia, tem o amargo sabor das ditaduras. Meu próximo livro também é de não ficção, como a biografia Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo. Também sairá, em 2016, pela Companhia das Letras. Tem protagonista, mas não se trata de uma biografia. Enquanto a legislação obscurantista não for mudada, não considerarei a hipótese de voltar a escrever uma biografia.

O principal argumento de quem é a favor de se manter a legislação tal como está é a defesa da privacidade. Dependendo do biografado, uns mais outros menos, é difícil separar o foro íntimo do que toca o interesse público. Qual deve ser o limite de um biógrafo?

O interesse público. Como contar a imensa influência da Marquesa de Santos na vida política do Império omitindo seu affaire com Dom Pedro I? É possível reconstituir a trajetória de Vinicius de Moraes, o poeta do amor, sem falar de seus amores e suas paixões? Eu não tenho, porém, direito de escrever que um vizinho e uma vizinha, figuras anônimas, têm ou não amantes. Mas seria uma aberração histórica não informar o que o ex-presidente Juscelino Kubitschek pretendia fazer no Rio quando ocorreu o desastre automobilístico que o matou (ele iria encontrar a amante).

O biógrafo ainda é uma espécie em potencial extinção ou você já vê um meio termo que permita a realização de trabalhos biográficos?

A lei que permite censura prévia é grave ameaça a iniciativas de contar vidas, não somente em livros, mas também em trabalhos acadêmicos, no cinema, no teatro e em diversos outros meios.

Seu livro sobre o Marighella, até onde sei, contou com o apoio de parentes e pessoas ligadas a ele. Esse caminho, claro, te deu algumas seguranças. Quando esse tipo de consentimento pode ser prejudicial para o trabalho?

A biografia jornalística perde quando deixa de ser um trabalho independente para virar propaganda, promoção de personagem. A biografia que eu escrevi não foi submetida a ninguém, além dos meus editores da Companhia das Letras, antes do lançamento. É uma biografia não autorizada.

Quais são tuas expectativas para essa questão das biografias?

Espero que o século 21 chegue logo, pois a Idade Média, neste quesito, está demorando a passar.

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