Discografia

Os transsambas de Aline Calixto

A história de Aline Calixto na música brasileira começou em 2009, com um disco de samba cuja capa dava um ar nostálgico, de apego à tradição dos anos 1930 ou 40. Essa leitura é fiel ao trabalho que essa cantora carioca desenvolveu ao longo dos três primeiros discos. Mesmo com uma novidade ali, uma participação de Emicida acolá, foi mesmo na tradição do samba que essa boa intérprete se ancorou numa época em que o samba vivia um bom rejuvenescimento no mercado. Era a época de vozes como Roberta Sá, Teresa Cristina, Casuarina e outros.

Quase uma década depois, Aline Calixto decidiu quebrar esse ciclo de ziriguiduns e telecotecos. Serpente (Lab 344), dirigido por Domenico Lancellotti, é um disco de climas quentes, espaços em branco, timbres elétricos e detalhes. Seguindo uma estética meio “banda Cê”, ela se cercou de um grupo de trabalho – Domenico na bateria e percussões, Pedro Sá na Guitarra e Cristina Braga na harpa – e montou um repertório autoral dividido com parceiros como Edu Krieger, Dea Trancoso e Gabriel Moura.

Mesmo longe da tradição, Aline não se afasta por completo do samba. Sentimento Errado, parceria com Moacyr Luz, por exemplo, é um samba canção com toda a nostalgia que o gênero merece. Nem tão moderninho quanto Bárbara Eugênia, nem tão pesado quanto Maysa – embora esta talvez fosse gostar do clima nublado do álbum. Isso por que Serpente é disco feito a base de despedidas, recados bem mandados e tristeza bem medida.

Foto: Phil Leon

Colapso, por exemplo, começa com tambores marcando o ritmo, mas logo guitarra e harpa surgem para deixar claro que a sonoridade é outra. A faixa título segue na toada, lenta, cadente, deixando a voz profunda de Aline brilhar como guia. É possível sentir o nó na garganta dela dizendo: “não quero mais quem cria tribunais, que julgam o que falo, penso e faço”.

Aliviando a barra, Revival é um pop com cara de anos 1980, que lembra muito Marina Lima. Da letra ao ritmo praiano, a parceria com Gabriel Moura pode ser um bom chamariz para as rádios. No oposto, O tiro pretende ser dramática, mas se perde em rimas pobres. Um bicho estranho dentro do repertório é Sentir, uma balada roqueira que tenta pesar a mão, mas fica presa a uma cantora com medo de errar.

Entre erros e acertos naturais, Serpente não deixa de ser um passo corajoso na obra de Aline Calixto, mas deve ser visto em perspectiva. Se o samba dos primeiros discos sempre cativam um público fiel ao estilo, o som rock-samba-indie-tropicalista também tem muitos adeptos e vem criando suas próprias fórmulas. Levando isso em conta, bem guiada pela experiência de Domenico, Aline fez um disco que, longe de qualquer unanimidade, merece ser entendido, ouvido com atenção e desbravado a partir dos detalhes.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.