Discografia

Sem Palavras: Samba, uma herança de pai para filho

 

Por Victor Hugo Santiago

Com acordes quartais muito bem aplicados e um “sambalanço” rítmico invejável, Hamleto nos brinda com o seu mais recente trabalho; intitulado Ponte Aérea. O disco traz improvisos com acentuação e projeção dinâmica impecáveis, mantendo a uniformidade incrível de discos anteriores, vide o seu primeiro disco, Samba-Jazz (2003). Foi neste onde galgou sua carreira no mercado instrumental. Álbum também ficou conhecido por “Speed Samba Jazz” (CD inclusive, muito bem recebido pela crítica), com formação de trio e contou com a participação especial de Paulinho Trompete no flugelhorn, dando origem à série de outros discos intitulados “Samba-Jazz”; que o coloca em um nível de excelência técnica surpreendente. Hamleto consegue descobrir ângulos novos na criação de cultuados pontos principais da canção brasileira; onde nelas, consegue mostrar todo o seu vigor e destreza sobre as teclas.

Hamleto Stamato nasceu em Bebedouro (SP) e iniciou seus estudos de piano aos 6 anos de idade em São Paulo. Com a morte do pai, retornou para Bebedouro onde estudou no Conservatório de Música dos 11 aos 13 anos. Aos 16 anos mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se formou bacharel em piano pela Universidade Estácio de Sá. Em 1988, tornou-se profissional, sendo logo reconhecido como um dos mais promissores pianistas de sua geração. Nesse ano, ele celebra 30 anos de carreira e em comemoração, lança mais um álbum instrumental, sendo este, o seu oitavo disco – gravado no estúdio Tenda da Raposa (RJ), em fevereiro deste ano (2018), pela Fina Flor, produzido pelo próprio Stamato. O músico forma o velho e bom “power trio” jazzístico. Com ele, o baixista Augusto Mattoso e baterista Erivelton Silva, reconstituem essa atmosfera de grupos que se proliferaram ao longo da década de 1960, nas boates das cidades de Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP), para tocar o samba-jazz derivado da carioca bossa nova.

Sobre o repertório do CD, estão incluídas duas músicas inéditas de autoria de Stamato, Samba pro pai (dedicado ao saxofonista e flautista paulista Hamleto Stamato Sobrinho, seu pai que saiu de cena em 1976). Contudo, as faixas se dá em um perspectiva basicamente organizadas por standards do cancioneiro genuinamente brasileiro. Hamleto recria clássicos, como a magnífica interpretação de Garota de Ipanema é particularmente notável pelos rebuscados “voicings” oriundos do jazz, deixando-a mais dissonante do que a sua versão original. Já em O morro não tem vez, por exemplo: os acordes começam num segmento mais ostinato e vem brotando aos poucos, numa crescente impressionante, saindo de um andamento mais lento, para um mais dentro do tempo convencional, por assim dizer. Logo é aquecido com o apoio atento e vibrante de uma seção rítmica privilegiada, do dinâmico baterista Erivelton Silva. Além destes dois clássicos emblemáticos de Tom e Vinícius, encontram-se registrado dois temas/composições do saudoso músico e maestro pernambucano Moacir Santos. Sendo elas: Coisa nº 2 e April Child, parceria com Jay Livingston e Raymond Evans. A composição Samba Pro Pai foi escrita para o CD Tributo a Mileto (Tratore), de 2016, e é uma homenagem (em allegro vivace) ao pai de Hamleto, que lhe deu o próprio nome, mas que era conhecido como Mileto. Stamato pai era saxofonista e tocou, em meados de 1970, com, pasmem, Hermeto Pascoal. O título do álbum, Ponte Aérea, alude tanto ao fato de o pianista viver entre Brasil e Holanda como à conexão entre as cenas musicais de Rio e São Paulo.

Não poderia deixar de citá-lo por ter feito parte do projeto e gravação do CD Ioiô, primeiro trabalho solo do guitarrista Nelson Faria, sendo neste, parceiro de Nelson e Rodolfo Cardoso na faixa título do CD. Lançou o selo BrPlus, estúdio criado em parceria com PH Castanheira. A dupla ainda assinou grandes produções na TV Globo, como o Criança Esperança, e Brasil 500 anos, transmitidos para o Brasil e outros países da América Latina. Uma de suas composições é tema da academia e fez parte da trilha sonora da novela Andando nas Nuvens da mesma emissora. Foi produtor musical e arranjador dos programas Fama (4º edição) e Estação Globo. Já foi indicado ao prêmio Tim na categoria melhor grupo instrumental. De fato, sua carreira já é consolidada desde a infância. Não só pela velha e boa ideia de que “filho de peixe, peixinho é”. Mas, sobretudo, pela ideia de que o samba e a música são sim, herança predestinável. Salve os sons!

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