Discografia

Sem Palavras: Ao mestre Edu Lobo

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Por Victor Hugo Santiago

Diz-se que “em casa de ferreiro, espeto de pau”. No caso de Mauro Senise, esse dito se desconstrói tomando outro rumo. Com uma admiração empática pelas matrizes da música brasileira, ele pensa em música de forma consciente, madura desde os primeiros trabalhos. Mauro anda de mãos dadas com a música em um eterno romance sonoro. No seu sublime legado como instrumentista não há espaço em que estes resultem trabalhos chinfrins, pois sua arte é arada em solos sagrados, vindos de uma linhagem direta de ninguém menos do que o gênio dos sopros Paulo Moura.

Mauro Senise nasceu em maio de 1950. É natural do Rio de Janeiro. Um autêntico “carioca da gema”, neto do pensador Alceu Amoroso Lima, começou sua carreira nos anos 1970, tendo estudado muitos anos flauta clássica com Odette Ernest Dias e sax com o lendário Paulo Moura, dois mestres que ele reconhece como fundamentais em sua carreira. Durante muitos anos tocou e gravou com outras grandes referências, como Wagner Tiso, Luis Eça e Hermeto Pascoal. Gravou também com quase todos os grande nomes da MPB, mas ser solista sempre foi seu objetivo.

Sobre o seu disco solo Casa Forte – Mauro Senise toca Edu Lobo, ressalto duas questões imprescindíveis. A primeira é que, apesar desse disco já ter um pouco mais de 10 anos de existência, é antológico e atemporal como outros álbuns de Mauro, do qual ainda irei escrever muito aqui no blog. Em segundo, é que ontem, foi o aniversário de 75 anos do mestre Edu Lobo, grande homenageado e merecedor de todas as nossas honrarias. Dois motivos indiscutíveis para reportar-se a um disco desse quilate, que está acima de qualquer mera catalogação fonográfica ou possíveis convicções saudosistas.

Lançado oficialmente em 2006, ano em que Mauro comemorou 35 anos de carreira e lançado pela Biscoito Fino, o CD Casa Forte traz o próprio Edu Lobo fazendo participação especial em Canção do Amanhecer. Todos os arranjos são de Gilson Peranzzetta, amigo e parceiro de Senise em muitos trabalhos. Um ano depois (2007), Senise lança seu primeiro DVD, expandindo esse mesmo trabalho para o formato áudio/vídeo. A apresentação foi gravada ao vivo na Sala Cecília Meireles (RJ) em 30 de novembro de 2006. Tanto no CD como no DVD, Senise apresenta 13 temas, entre o lado A e B da obra de Edu Lobo, das quais destaco: Pra Dizer Adeus, de Edu e do saudoso Torquato Neto, em que Senise e sua flauta em sol (G), de timbre encorpado, dialoga com o vibrafone sútil e ao mesmo tempo preciso, de Jotinha Moraes. Os dois dão suas respectivas assinaturas à canção, que conectam de maneira suntuosa, tornando melodia e intermezzo um só.

Destaque também para o arranjo de cordas friccionadas da introdução de Choro Bandido, de Edu e Chico Buarque, sob a arregimentação do maestro Paschoal Perrota, e as notáveis respirações interpretativas entre as notas de Senise, ao estilo Miles Davis”, que deixam-na impecável. Considerando a “cozinha” como parte essencial desse trabalho, ela se caracteriza dentro do padrão das conduções jazzísticas que dão um sabor especial pela faixa que intitula o disco. Por último, e não menos importante, a “harmonia chick coreana” de Casa Forte, que, por meio do jazz de fusão com pitadas de figuras rítmicas do baião, enveredam para outras configurações de tempo. Só ouvindo para atestar. No registro, Mauro, que é multi no quesito instrumentista, alterna o sax (alto e soprano) com a flauta e o flautim, e traz participação especial de Gilson Peranzzetta (piano e arranjos), Paulo Russo (baixo acústico) e Ivan Conti, o Mamão (bateria). O concerto tem ainda o piano carioca de Itamar Assiére, o vibrafone de Jota Moraes (o Jotinha) e o cello de Marcio Malard, além da Orquestra dos Sonhos do próprio Edu Lobo.

Deixo nas palavras acima um registro especial acerca de um dedicado instrumentista: Mauro Senise, a inspiração do trabalho, mestre Edu Lobo e uma porção da significativa história da música instrumental brasileira. Deleitem-se! Salve os sons!

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