Discografia

“Sem a Carmen nos anos 1930, não haveria David Bowie nos anos 1970”

Foi em 1989, no filme Banana da Terra, que Carmen Miranda criou a imagem que tornou-se icônica em sua história. Em seu último filme produzido no Brasil, ela iria interpretar Na Baixa do sapateiro, de Ary Barroso, mas os produtores não quiseram pagar o que o compositor pediu. Foi então que o compositor e radialista Almirante lembrou de uma música de Dorival Caymmi que talvez coubesse bem naquela cena: O que é que a baiana tem?.

Ali nasceu a imagem da baiana estilizada criada por Carmen para ilustrar a letra que fala em balangandãs, torço de seda, corrente de ouro e sandália enfeitada. Mais que imortalizar um ícone cinematográfico, aquele personagem criou um imaginário de Brasil que se espalhou pelo mundo e gera inúmeras discussões cultura, suas representações e um ideário de país. O cineasta Felipe Bragança afirma: “Carmen personificou, corporificou, a antropofagia que o Modernismo buscava pensar com palavras”.

Diretores do longa Tragam-me a Cabeça de Carmen M., ele e Catarina Wallenstein usam a imagem da artista portuguesa que cresceu no Brasil para falar de um País em busca de sua identidade. O filme que estreou na Mostra de Tiradentes fala de uma atriz portuguesa que vem ao Brasil em busca de elementos para seu próximo projeto: um filme sobre Carmen Miranda. Com um filme nascendo dentro de outro filme, eles mergulham em questões que sempre atravessaram o pensamento nacional. De Portugal, durante as filmagens de um novo trabalho, Felipe conversou com o DISCOGRAFIA por email. Confiram.

Felipe Bragança ao centro

DISCOGRAFIA – Seu filme não é um documentário, não é exatamente biográfico e nem tem a Carmen em si como principal personagem. De que forma ela incorpora todas as questões que vocês desejavam abordar em Tragam-me a Cabeça de Carmen M.?
Felipe Bragança – Nosso filme é uma homenagem agridoce à grande inventora cultural que foi Carmen Miranda. Mas não é um filme com a Carmen, pessoa, em cena. Pensamos que o filme é um ensaio em torno da trajetória da Carmen, através da história de uma atriz que está se preparando para viver Carmen Miranda em um filme dentro do filme. Nenhum filme vai ser capaz de abarcar tudo que representa e representou Carmen Miranda. Nosso filme é um gesto de propor um olhar complexo sobre esta mulher, que vai muito além do ícone pop em que ela se tornou.

DISCOGRAFIA – Seu filme já foi apresentado no Brasil, durante o Festival de Tiradentes, e em Roterdã. Que impactos a lembrança de Carmen causa nos diferentes lados do Atlântico?
Felipe Bragança – No Brasil, a polêmica em torno da figura da Carmen é muito grande. E no fundo é uma discussão sobre a possibilidade e a impossibilidade do Brasil como um território de utopia. Na Europa, o que se sobressai é a curiosidade sobre o estado de afasia que o País está passando, esse transe de puritanismo em que nos metemos. O público europeu reconhece, e como nós, a figura da Carmen como uma figura transgressora e que soa como antítese do moralismo emergente hoje no País.

DISCOGRAFIA – Numa entrevista em Roterdã, você comentou que Carmen foi “a primeira apropriadora cultural”. Qual sua opinião sobre o conceito de apropriação cultural?
Felipe Bragança – Na entrevista para um jornal português, a expressão foi usada com ironia, porque no fundo o que achamos é que a ideia Carmen, não apenas a pessoa da Carmen, desafia todas as regras de boa conduta cultural, as fronteiras geográficas e os limites do processo criativo nacionalista que visa o engessamento. A nosso ver, toda invenção cultural se dá através da acumulação e atravessamento do que nos é estranho com o que nos é familiar. Por vezes se confunde “apropriação cultural”, o gesto cruel de uma cultura opressora tentar simular elementos culturais de uma cultura oprimida buscando a substituir, com a miscigenação cultural criativa, que é espontânea, incontrolável e gera novas coisas e ideias e imagens desde que o mundo é mundo. Para nós, o gesto performático da Carmen em relação ao samba era o de uma artista propondo invenção, transgressão e encontro através da paródia e da ironia, e não uma mera imitação simulada da cultura do samba – como, às vezes, tentam simplificar ao falar dela e de sua arte como o gesto de uma ladra. Diminuir a Carmen é fruto de uma ignorância de sua trajetória criativa e do contexto em que ela criava.

DISCOGRAFIA – A imagem construída por Carmen acabou por se espalhar pelas mais variadas linguagens e é, ainda hoje, citada em diferentes meios. Porque essa mulher/personagem tornou-se tão forte e perene ao longo da história?
Felipe Bragança – A Carmen foi uma das maiores pensadoras da cultura brasileira na história e uma das inventoras da ideia de que a voz e o corpo se tornariam uma só coisa na construção da iconografia pop. Carmen personificou, corporificou, a antropofagia que o Modernismo buscava pensar com palavras. Sem a Carmen nos anos 1930, não haveria David Bowie nos anos 1970.

DISCOGRAFIA – Se um dos maiores ícones da cultura brasileira nasceu no exterior, em que medida Carmen Miranda é solução e dúvida para a crise de identidade nacional?
Felipe Bragança – A solução que Carmen nos apresenta é justamente essa: nos encontrar na incongruência. Quando o Brasil busca unidade e congruência, se suicida. É o que estamos passando agora: uma vontade de unidade harmônica nacionalista. E isso mata.

DISCOGRAFIA – A produção de Tragam-me a Cabeça de Carmen M. levou seis meses, de maio a dezembro de 2018, quando o Brasil viveu um turbilhão político, histórico e conceitual ao questionar termos como liberdade, ditadura e democracia. Em que medidas, seu filme é um retrato de um momento histórico e, ao mesmo tempo, do Brasil de qualquer época?
Felipe Bragança – Eu e Catarina Wallenstein, que dirige e escreve o filme comigo, queríamos justamente expressar um sentimento que tínhamos diante do País: essa mistura de completo desencanto com uma saudade esperançosa de que este país de alguma forma ainda pulse o território de utopia tropical, do encontro e da invenção que um dia sonhou ser.

Cena do filme Tragam-me a cabeça de Carmen M.

DISCOGRAFIA – Uma cena do filme mostra o Museu Nacional, recentemente perdido em um incêndio. Carmen é uma estrela do cinema pouco assistida em seu país e uma cantora pouco ouvida. De que forma você acredita que ela representa a relação do Brasil com a própria memória?
Felipe Bragança – O Brasil foi construído sobre esquecimento, violência e confusão. Toda a beleza e a dor do imaginário brasileiro vem daí. Desses povos ibéricos, americanos e africanos, desterrados, sequestrados, mortos e esquecidos nessa terra prometida e impossível.

DISCOGRAFIA – Como tem sido a repercussão de Tragam-me a Cabeça de Carmen M. entre o público? Tendo sido uma produção tão rápida e atravessada por tantos questionamentos, como vocês têm avaliado o resultado após ele encontrar o público?
Felipe Bragança – O público não existe. Existem pessoas. E algumas choram, outras riem e outras pensam muito após verem o filme. E acho que ele tem feito o que procurávamos com ele: propor a Carmen como criadora potente, que pode e deve ser revisitada para além da iconografia pop. E fazer também uma pequena crônica do Brasil do final de 2018 tão atravessado por mazelas políticas. Queríamos isso: um filme feito de dúvidas. Que celebrasse as dúvidas nesse mundo tão viciado em certezas.

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